

It's the end of the world as we know it
A frase na canção do R.E.M. não foi criada como manifesto geopolítico, mas ganhou contornos quase literais ao observarmos o reposicionamento global a partir do segundo mandato de Donald Trump. Não se trata só de uma alternância de poder, algo inerente às democracias maduras, mas de uma inflexão de paradigma. Um redesenho do tabuleiro em que regras tácitas da diplomacia, construídas ao longo de décadas, passaram a ser tratadas como ativos negociáveis, não como pilares civiliz


O país dos favores
Há uma engrenagem que move o Brasil com mais eficiência do que qualquer política pública. Não está nos organogramas, não aparece nos relatórios de governança, mas entrega resultados. Chama-se favor. Na sua versão mais ingênua, poderia ser apenas capital relacional. O problema começa quando ele deixa de ser exceção e passa a fazer parte do script. As notícias recentes envolvendo o uso de aeronaves privadas por integrantes de altas esferas de poder recolocam esse tema no centro


A epopeia das senhas que não confirmam
Há uma nova jornada do herói em curso, silenciosa, cotidiana e absolutamente inevitável. Ela não envolve dragões, tampouco mares revoltos ou lanças. Trata-se de algo muito mais sofisticado e, convenhamos, mais desafiador. A tentativa de acessar a própria conta. O roteiro é conhecido. Você decide realizar uma operação banal, fazer uma transferência, pagar um boleto, acessar um extrato, concluir uma compra. Um gesto simples, quase um reflexo. A partir daí, inicia-se uma experiê


Crise recorrente é falha no sistema
Chega uma hora em que a reputação deixa de ser um assunto de comunicação e passa a ser, essencialmente, um tema de governança. O recente caso envolvendo a executiva de uma grande rede do varejo recoloca a discussão no centro da mesa, não como crise isolada, mas como sintoma estrutural. As investigações indicam um suposto esquema de favorecimento fiscal, com indícios de relações impróprias entre agentes públicos e privados para acelerar créditos tributários. Se confirmados, os


Quando a imagem silencia o sentir
Em 1988, diante de Jô Soares, um jovem Guilherme Arantes fez uma leitura que soava desalinhada com o entusiasmo da época. No auge do videoclipe, quando a música começava a ser capturada pela imagem, ele trouxe um incômodo elegante e raro. Sua crítica era simples e profunda. Ao atrelar a música a uma narrativa visual pré-definida, reduzia-se o espaço da imaginação. A experiência deixava de ser íntima para se tornar guiada. Em outras palavras, passávamos a ver demais e sentir


O amor não saiu de cena
Há frases que não cabem apenas na música. Elas atravessam o tempo, escapam dos fones de ouvido e se instalam na vida real como pequenos lembretes de quem somos, ou de quem deveríamos ser. Apesar de estarmos sendo cada vez mais orientados à performance, velocidade e à validação, as canções, esse território aparentemente leve e emocional, ainda resiste a algumas das verdades mais sólidas sobre o afeto, sobre o encontro e sobre a necessidade humana de pertencer. Não por acaso,


O poder não está nem aí para você. E o que fazer com isso?
Há uma ilusão confortável que atravessa gerações: a de que, em algum nível, o poder olha por nós. Não olha. O poder olha para si mesmo, para a sua manutenção, para a sua expansão, para a sua sobrevivência. Todo o resto é ficção que conforta. Existe uma ideia recorrente, quase intuitiva, de que, para alguém ganhar, alguém necessariamente precisa perder. A ciência econômica relativiza isso. Jogos de soma zero existem, mas não são regra universal. Em muitos contextos, especialme


A força das palavras de uma mãe
Ela atravessou o oceano trazendo pouco nas mãos e muito na memória. Uma infância interrompida cedo demais, marcada por ausências, silêncios e pela necessidade de crescer antes do tempo. Ainda assim, o que chegou ao Brasil não foi uma mulher endurecida. Foi alguém que decidiu, quase como um ato de resistência, ser o oposto de tudo aquilo que viveu. Minha mãe não acumulou estudos formais, mas acumulou mundo. Aprendeu no rádio, na curiosidade que nunca lhe faltou. Conhecia histó


Sangue frio na economia
Escrevo provocado por mais um ciclo de tensão internacional que rapidamente transbordou do campo geopolítico para o econômico. A escalada envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã recoloca o mundo diante de um velho conhecido: a instabilidade que nasce nos conflitos e se propaga com velocidade pelos mercados. O petróleo reage primeiro, como sempre quando o assunto é Golfo Pérsico. Sobe não apenas pelo risco concreto de interrupção de oferta, mas pela expectativa, pela ansiedade


O cometa Real
Passados mais de trinta anos do Plano Real, o Brasil olha para trás e percebe que aquele momento foi mais do que uma política econômica. Foi um raro encontro de talento técnico, liderança política e senso de propósito público. Não se trata de romantizar o passado, mas de reconhecer que, em determinados momentos, um país consegue reunir um grupo capaz de enfrentar problemas estruturais com método, coragem e visão de longo prazo. Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Gustavo



























































