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Sala de estar a 10 mil metros de altura

Viajar de avião virou um curioso teste de convivência humana. Em poucas horas, somos apresentados a comportamentos que desafiam qualquer manual básico de civilidade e, confesso, também a nossa paciência.


Há o passageiro que assiste a vídeos sem fone, em volume máximo, como se estivesse oferecendo entretenimento coletivo. O que levanta antes do aviso, fura a fila do banheiro e ocupa o corredor como se tivesse prioridade moral. Pais que terceirizam a educação dos filhos para o acaso, transformando a cabine em parque de diversões. E, claro, quem mantém o celular no brilho máximo quando as luzes se apagam, iluminando a aeronave como um farol em noite de neblina.


Some-se a isso o assento reclinado sem aviso, o apoio de braço monopolizado, o sapato, e às vezes a meia, que ganha vida própria. Nada disso é grave isoladamente. Mas, junto, revela algo maior: desaprendemos a dividir espaços.


Talvez o problema não seja falta de informação, mas excesso de individualismo. Vivemos a era da autonomia sem contexto, do “eu” desconectado do “nós”. Dentro do avião, isso fica ainda mais evidente, porque não há para onde fugir. A convivência é obrigatória, e o espelho social é impiedoso.


Curiosamente, pequenas atitudes resolvem quase tudo: um pedido antes de reclinar, um fone no ouvido, um olhar atento ao redor, um limite claro para as crianças. Não exige sofisticação, apenas consciência. Gentileza, afinal, é uma tecnologia antiga, barata e extremamente eficiente.


Etiqueta não é frescura nem elitismo. É inteligência social. É entender que o conforto individual termina onde começa o desconforto do outro. O avião, esse tubo voador, é um retrato do nosso tempo: muita autonomia e pouco cuidado com quem está ao lado.


No fim, elegância não tem a ver com classe, destino ou milhas acumuladas. Tem a ver com perceber que o outro existe. Inclusive a 10 mil metros de altitude.

Foto: Gerrie Van der Walt | Unsplash



 
 
 

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