A cadeira que fica de pé
- Luis Alcubierre

- 21 de jan.
- 2 min de leitura
Há uma cadeira imensa diante do Palácio das Nações, sede da ONU, em Genebra. Ela insiste em permanecer de pé mesmo quando a lógica estrutural diria que ela deveria tombar. A Broken Chair, com seus 12 metros de altura, é mais do que uma obra de arte monumental. É uma declaração. Um alerta global sobre as amputações humanas causadas por minas terrestres e munições de fragmentação. Mas também é, inevitavelmente, uma metáfora poderosa sobre outra forma de mutilação: aquela que impomos a nós mesmos, nas sociedades, governos e empresas quando abrimos mão do equilíbrio que sustenta qualquer jornada de evolução.
A imagem da cadeira manca, firme e vulnerável ao mesmo tempo, revela uma contradição que conhecemos bem no mundo real. A vida, a democracia, a reputação e as relações institucionais só se sustentam quando todas as pernas estão funcionais. Basta que uma se rompa para que tudo precise ser reorganizado. Ainda assim, seguimos. Cambaleantes, por vezes. Resilientes, quase sempre. Mas não sem consequências.
A cadeira que falta uma perna é também a materialização do que acontece quando deixamos que a polarização substitua o diálogo. Quando o pragmatismo perde espaço para impulsos radicais; quando organizações, públicas ou privadas, negligenciam uma dimensão essencial do seu próprio tripé de sustentação: ética, transparência e responsabilidade social.
No entanto, é justamente ali, onde falta um apoio, que mora o aprendizado. Porque a Broken Chair não fala apenas de destruição. Ela fala de advertência, coragem e equilíbrio estratégico.
Para quem atua em ambientes de alta complexidade, como a Comunicação e as Relações Governamentais, a metáfora é ainda mais evidente. Todos nós já percebemos, em algum momento, que as estruturas que deveriam sustentar a convivência democrática foram fragilizadas. Que setores inteiros da sociedade operam com uma perna a menos. Que governos tentam avançar sem a perna do consenso. Que empresas caminham sem a perna da confiança pública. Que relações pessoais se desgastam quando falta a perna do diálogo genuíno.
E ainda assim seguimos. Porque a mobilidade humana, física, emocional e social, não desaparece. Ela apenas exige recalibração. Exige que busquemos novas âncoras, novos pontos de equilíbrio, novas práticas de governança e um compromisso ainda mais firme com a resiliência que não anestesia, mas transforma.
A escultura nos provoca a olhar de frente para nossas próprias fragilidades coletivas. Se uma cadeira monumental permanece de pé apesar da lacuna estrutural, por que tantas organizações ruem quando lhes falta apenas uma peça? Talvez porque, diferente da obra de Daniel Berset, executada com maestria por Louis Genève, nossas estruturas não foram construídas para sobreviver ao descuido. Foram feitas para sobreviver ao cuidado, à vigilância ética, à responsabilidade com o outro, à capacidade de ouvir sem mutilar o interlocutor.
A Broken Chair também nos lembra que liberdade, seja a de um país, de uma instituição ou de um indivíduo, depende de mobilidade. E mobilidade depende de equilíbrio. Não existe liberdade sustentável quando uma perna está quebrada. Nem quando fingimos que ela não está.
Por isso, a cadeira diante das Nações Unidas vai além do memorial. É um espelho. Um chamado à reinvenção do equilíbrio que nos move. Ao fim e ao cabo, a pergunta que ela nos faz é simples e profundamente contemporânea: O que estamos deixando quebrar e por quanto tempo ainda imaginamos que conseguiremos ficar de pé?






























































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