O direito de mudar
- Luis Alcubierre

- 8 de nov.
- 2 min de leitura
Há uma pressa, quase automática, em transformar toda decisão corporativa em símbolo de traição de valores. Está sendo assim com o Nubank. A empresa, que construiu sua reputação sobre autonomia e cultura digital, anunciou o fim do modelo totalmente remoto. E logo virou alvo de críticas. Acusam a empresa de incoerência, de conservadorismo, de retroceder. Talvez o que esteja acontecendo seja apenas o amadurecimento natural de uma organização que cresceu e agora busca equilíbrio entre liberdade e pertencimento.
O Nubank não agiu de forma autoritária. Comunicou com antecedência, explicou os motivos, desenhou um plano de transição até 2027 e apontou os “custos invisíveis” do remoto. Não é imposição, é coerência. É a constatação de que autonomia não se sustenta sem convivência, de que cultura e propósito também se alimentam de presença, de troca real, de energia coletiva. O que muitos chamam de retrocesso é, na verdade, a difícil arte de ajustar o discurso à realidade.
Há quem cobre da empresa métricas, pesquisas ou experimentos antes de decidir pelo retorno. É uma leitura legítima, mas que confunde gestão de produto com gestão de cultura. Cultura não é um protótipo que se testa. É um organismo vivo, sustentado por valores e práticas, que exige convicção e direção. Nem tudo que é essencial cabe em um dashboard. O Nubank parece ter tomado uma decisão estratégica, baseada em percepção e aprendizado . Comunicou com transparência, mesmo sabendo que enfrentaria resistência.
Será que a reação tão intensa não tem a ver com algo maior que a mudança em si? Talvez o anúncio tenha apenas disparado uma dor mais profunda, um sentimento coletivo de cansaço, de desconfiança em relação às empresas, de nostalgia de um tempo em que o trabalho parecia mais sob controle? A transição para o híbrido vira, então, símbolo de uma insegurança mais ampla: a de um mundo que muda rápido demais e onde buscamos, sem perceber, culpados para o desconforto das transformações.
Algo parecido ocorreu no debate que envolveu o Itaú Unibanco. O banco demitiu colaboradores por improdutividade, justificando quebra de confiança. O tom pode incomodar, mas o princípio é o mesmo: a empresa tem o direito e a responsabilidade de definir seus critérios de desempenho e preservar sua cultura.
O problema é quando a opinião pública reage sem ponderação, como se toda decisão impopular fosse um ato de tirania. Esquecemos que a relação de trabalho é um pacto de mão dupla, que exige ética, entrega e reciprocidade.
É preciso mais responsabilidade nessa conversa.
Nem toda mudança é retrocesso, nem toda demissão é arbitrariedade. Organizações vivem ciclos, aprendem, se reorganizam e, se comunicam com respeito, merecem o benefício da dúvida. O desafio de quem lidera é mudar sem trair princípios. O de quem trabalha, entender que liberdade e responsabilidade caminham juntas. No fim, o direito de mudar também é um sinal de maturidade e talvez o passo mais honesto que uma empresa pode dar.






























































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