

Você tem que me ajudar a te ajudar
A frase, dita quase como piada em Tropa de Elite, virou retrato incômodo de uma cultura que fingimos não ver, mas que atravessa o dia a dia. Não é só bordão de um filme. É a senha informal de um sistema em que favores pessoais valem mais do que regras e onde combinados de bastidor atropelam qualquer tentativa de construir um país mais sério, previsível e minimamente ordeiro. A malha fina dessa prática revela um país onde a ordem é desafiada por interesses privados e se transf


O soldado de superfície
A inspiração para este artigo veio de um post sensível da Ana Lucia Bacchelli , que reacendeu uma discussão urgente: a presença, ainda surpreendentemente comum, do profissional de aquisição de talentos que atua como um soldado de superfície. Alguém que se deslumbra com a embalagem e negligencia o conteúdo. No dia a dia corporativo, essa figura continua se guiando por perfis impecáveis, discursos lapidados e reputações digitais tomadas como credenciais absolutas. É a lógica d


Dinheiro não compra o que nos torna humanos
O recente caso da torcedora catarinense demitida após cometer atos racistas em um jogo do Avaí reacende uma verdade incômoda: nenhum salário, por mais elevado, compra aquilo que sustenta a vida em sociedade. O contraste entre sua posição profissional e a agressão moral que protagonizou expõe o equívoco de confundir sucesso financeiro com educação e nos obriga a revisitar valores que deveriam ser inegociáveis. Esse episódio ganhou força porque toca em situações que todos recon


Inteligência rara ou teatro de poder disfuncional?
A análise social parece estar exigindo menos celebração das lideranças e mais investigação das aberrações. Quando alguém se coloca acima das regras, aquelas que sustentam a convivência institucional, e justifica sua transgressão com argumentos simbólicos ou curiosos, estamos diante de uma encruzilhada filosófica e biológica. Darwin já nos ensinou que a sobrevivência, em muitas espécies, segue vias tortuosas. Nem sempre vence o mais forte, mas o mais adaptável ao ambiente de c


O tempo ao alcance das mãos (PARTE 2)
A Revolução Francesa ainda pulsava quando decidi ficar mais uma noite em Paris. Era julho de 1789 e o ar tinha cheiro de expectativa. E de medo. Decidi ficar mais dois dias depois da queda da Bastilha. A cidade parecia caminhar sobre cacos. Ruas tomadas por rumores, cafés lotados de gente comentando o que poderia vir. O extraordinário acontecia no detalhe. Homens discutiam direitos como quem discute pão, mulheres defendiam a própria voz, jovens anotavam tudo em folhas que tal


O tempo ao alcance das mãos (PARTE 1)
Desde pequeno a imaginação me leva longe daqui. Não se trata só de um lugar, mas de quando. A chance de atravessar o tempo como quem atravessa uma porta sempre mexeu comigo. Não era fuga, era fascínio puro. Pode ser que essa vontade tenha nascido nas séries como O Túnel do Tempo e A Ilha da Fantasia. Não perdia um capítulo. Elas me faziam acreditar que a qualquer momento poderia tropeçar em um portal escondido no quintal. Mas foi quando De Volta para o Futuro chegou, há exato


A coincidência improvável e o uso oportunista do risco reputacional
Quando um estudante aparece, dias antes do ENEM, exibindo em uma live questões praticamente idênticas às aplicadas, não falamos de sorte. Falamos de algo que desafia a lógica e exige resposta imediata. Os mesmos números, os mesmos textos, a mesma estrutura. Uma coincidência tão improvável que levou o MEC a anular três perguntas. O jovem alegou ter decifrado um "padrão de IA". Fui conversar com quem opera modelos avançados de algoritmos. A resposta foi rápida: "essa tese não p


O país que ainda insiste em tropeçar no óbvio
A liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central e a prisão de seu controlador não são apenas mais um escândalo financeiro. São um espelho incômodo da nossa velha mania nacional de tratar a trapaça como método e o atalho como cultura. Cada vez que um castelo de cartas cai, parecemos despertar por instantes, apenas para voltar a adormecer diante do mesmo roteiro. O caso revela um país que ainda enxerga governança como detalhe e controle como formalidade. A tentati


A ficção, enfim, entrou em casa
R2D2, C3PO, Rosie, Wall-E, HAL 9000, T-800. Durante décadas, esses personagens foram apenas projeções do que um dia poderia existir. Hoje percebo que eles foram, na verdade, exercícios preparatórios. Ensaios emocionais para algo que já está acontecendo. Pela primeira vez, a ficção não está mais distante da realidade. Ela está prestes a entrar nas nossas casas, nas fábricas, nos escritórios. E nas ruas. O curioso é que os primeiros robôs entre nós não tinham rosto humano. Eram


O enigma do afeto nos grupos de família
Quem não participa de um grupo familiar ou comunitário em que uma pessoa mais velha nos envia, com disciplina quase ritual, aquelas mensagens de bom dia, imagens de natureza, reflexões espiritualizadas ou pensamentos otimistas sobre a vida? Às vezes passam batido, outras arrancam um sorriso, mas raramente paramos para perguntar o que realmente sustenta esse hábito tão recorrente, esse pequeno enigma cotidiano. Quando olhamos com mais generosidade, e também com o olhar treinad




























































