O prazer que mora na feira
- Luis Alcubierre

- há 4 dias
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Há experiências que, mesmo atravessando as fases da vida, permanecem como um porto seguro. Ir à feira é uma delas. Não é apenas o gesto funcional de abastecer a despensa. É um ritual de pertencimento. Um convite semanal para desacelerar, conversar, sentir e, de alguma maneira, reconectar-se com a essência do cotidiano. A feira é uma coreografia espontânea onde cores, aromas e sabores se misturam a afetos. Um lugar onde a lógica da pressa dá lugar a uma economia emocional, feita de vínculos e memórias.
Ao longo do tempo, cada um de nós desenvolve um “roteiro afetivo”: aquele passeio que se repete, quase sempre igual, porque o corpo já sabe o caminho das barracas preferidas. O “bom dia” dito do mesmo jeito, a análise rápida da safra, a conversa que começa sempre com o clima e termina em risada. E, quando algo cansa, como tudo na vida, basta trocar duas esquinas e redescobrir a feira por outro ângulo, outras pessoas, outras possibilidades. Ainda assim, o retorno ao familiar é inevitável. Não compramos exatamente as mesmas coisas todas as semanas, mas voltamos sempre com a sensação inequívoca de que a próxima será saborosa.
Esses vínculos são tão fortes quanto os produtos que levamos para casa. Seu Manuel, o das frutas doces no ponto certo; seu Antônio, das carnes bem cortadas, sempre pronto para uma recomendação precisa; o Giba, das verduras que parecem recém-saídas da terra. Sem contar o pastel do seu Hiroshi e o caldo de cana do Quim. São protagonistas desse ecossistema vivo, onde a confiança é construída transação a transação, sorriso a sorriso. A feira tem essa capacidade de gerar capital humano. Aquele que não aparece nos relatórios, mas sustenta comunidades inteiras.
No último ano, esse cenário ganhou um novo personagem: um refugiado sírio que, em silêncio e com coragem, encontrou um canto para vender o que sabe fazer de melhor. O nome dele eu nunca perguntei, talvez por distração, talvez por respeito ao tempo dele, mas seu impacto veio inteiro. A esfiha que transforma o dia. O quibe impecável. O babaganush e o homus que transportam a gente para outra cultura sem tirar os pés da nossa. Ele não tem uma barraca formal, não sei se tem licença, mas tem algo que sustenta qualquer negócio: propósito, qualidade e humanidade. Tudo parece ser feito com segurança alimentar, porque ele tira as bandejas de grandes isopores resfriados e sempre faz questão de dizer: "o que vendo hoje foi feito de noite e de madrugada". E vende muito, porque tempero bom não precisa de marketing, basta chegar ao primeiro cliente.
Hoje, quando o encontro, já vou abrindo o sorriso com um “Salam Aleikum” e um “Shukran” dito com gratidão verdadeira. Ele retribui com histórias da família, com o sotaque carregado que já se mistura ao nosso português, com um “habibi” que quebra qualquer distância cultural. E, nesse gesto simples, há uma lembrança importante: a feira é, também, um espaço de acolhimento. Um lugar onde diferenças viram convivência e convivência vira aprendizado.
É impossível não pensar, nesses percursos semanais, no quanto o Brasil é generoso na produção de alimentos. Nosso país é pródigo, diverso em clima, solo e gente que planta, colhe e entrega. Mesmo com preços que nem sempre cabem no bolso, a abundância relativa é real. Em muitos lugares do mundo, o acesso à variedade, à cor, ao frescor que encontramos numa simples feira de bairro seria um luxo. Aqui, ainda conseguimos viver isso como rotina. E privilégio que vira rotina corre o risco de deixar de ser percebido.
Por isso, ir à feira é também um lembrete de gratidão. Um exercício de reconhecer o que funciona, o que nos alimenta, o que faz do nosso país uma potência silenciosa na agricultura e no abastecimento de alimentos. É a celebração do simples com a sofisticação que só a vida real oferece. Essa mistura de gente, sotaques, tradições e histórias que convivem no mesmo corredor entre tomates e bananas.
No fim, a feira é uma declaração de amor à vida que acontece sem palco. Essa vida que se revela no cheiro do alecrim fresco, no barulho da faca do frango sendo cortado, no pão sírio saído da mão de um refugiado que encontra dignidade ali. É o espaço onde descobrimos que o extraordinário sempre esteve no ordinário. Basta olhar com mais calma. Basta caminhar, mais uma vez, entre as barracas.






























































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