Quando a folha em branco diz muita coisa
- Luis Alcubierre

- 5 de nov.
- 2 min de leitura
Há dias em que as ideias simplesmente não vêm. A cabeça parece um corredor vazio, ecoando apenas o som do próprio passo. A folha em branco nos encara com um silêncio que pesa.
E tudo bem.
A verdade é que não nascemos para funcionar em linha de produção. A mente humana não é uma usina de ideias que trabalha sob demanda, nem o coração um motor que aceita ordens. Há dias em que o mais sábio é aceitar o vazio, respirar e deixar o tempo fazer o seu trabalho.
Lembro de um dia, anos atrás, em que entrei na sala do CEO, um dos executivos mais brilhantes que conheci, e o encontrei imóvel, olhando para o nada. O computador estava ligado, os e-mails piscando, mas ele parecia em outro lugar. “Minha vontade hoje era de não fazer absolutamente nada”, disse, quase num sussurro. “Acordei sem inspiração nenhuma.” Eram nove da manhã de uma terça-feira qualquer. Fizemos uma reunião breve, despachamos o básico e saí. Uma hora depois, ele passou por mim com a mochila nas costas. Foi embora. No dia seguinte, no board, estava pleno, afiado, voando. Às vezes é só isso: respeitar o corpo, o cansaço, o vazio e permitir que o silêncio reorganize o caos.
O cartunista Angeli viveu algo parecido no início dos anos 90 e transformou sua ausência de ideias em arte. Criou a série “Angeli em Crise”, em que o próprio personagem se vê sem criatividade, sem propósito, em conflito com o traço. Era uma forma de dizer que até quem vive de imaginar o mundo também precisa parar, se perder, duvidar de si mesmo. A genialidade dele foi compreender que até a falta pode ser uma narrativa. E que da pausa também nasce criação.
Mas o mundo corporativo, com seus mantras de alta performance, tende a nos fazer crer que parar é falhar. Que a ausência de ideias é falta de preparo, e não apenas um sinal natural de exaustão. É um equívoco caro. O cérebro, assim como qualquer sistema complexo, precisa de manutenção. Não é possível operar em modo turbo todos os dias. Permitir-se o não fazer, o não render, é uma forma de inteligência emocional e de autopreservação.
A máquina dá sinais. O corpo reclama, a mente dispersa, a paciência encurta. E é nesse momento que precisamos ouvir. Não com culpa, mas com atenção. O tempo de parar é parte do processo de continuar. O descanso é também estratégia. Um tipo de sabedoria.
Claro, se esse tempo se estender demais, se o vazio virar desânimo e o desinteresse se prolongar, é hora de buscar ajuda. Cuidar de si não é fraqueza, mas um gesto de lucidez. Chegar antes do corpo ceder e antes da mente gritar é o maior ato de responsabilidade que se pode ter consigo mesmo. Porque até as melhores ideias precisam de um terreno fértil para florescer. E esse terreno é você.






























































Comentários