Entre o cargo e conveniência
- Luis Alcubierre

- 25 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Há episódios na vida pública que não exigem adjetivos fortes nem julgamentos apressados. Eles se impõem sozinhos, pela força do contexto. Não é o fato isolado que preocupa, mas o ambiente que se forma quando funções institucionais elevadas passam a orbitar interesses privados em momentos sensíveis. É nesse território, cinzento e protegido pelos protocolos do poder, que a ética costuma ser testada.
O que veio à tona revela mais do que uma troca de mensagens entre autoridades. Revela um choque de lógicas. De um lado, a republicana, que exige distância e impessoalidade. Do outro, a da conveniência, que se escora na ausência de ilegalidade formal. O problema é que ética pública não se satisfaz com o “não foi proibido”. Ela exige prudência.
Quando uma autoridade situada no topo do sistema mantém contatos com outro pilar do Estado para tratar de um ente privado sob escrutínio, o contexto passa a ser tão relevante quanto o conteúdo. E quando esse mesmo ente mantém relações contratuais com o entorno familiar dessa autoridade, o debate deixa de ser jurídico. Torna-se institucional. E moral.
É tentador reduzir tudo às disputas políticas ou ruídos narrativos. Mas democracias não entram em crise apenas por crimes comprovados. Entram em crise quando a percepção de integridade se deteriora. Confiança institucional não nasce só de decisões corretas, mas de comportamentos irrepreensíveis.
Autoridades não são cidadãos comuns no exercício do cargo. O que para outros seria apenas conversa, para quem detém poder pode se tornar influência, ainda que involuntária. Por isso, a régua ética precisa ser mais alta, não mais flexível.
O alerta é simples e incômodo: ética pública não é apenas cumprir a lei, é evitar situações que jamais deveriam existir. Porque, no fim, entre o cargo e a conveniência, toda escolha deixa rastro.

Imagem: Nano Banana





























































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