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O risco nunca dorme

Interrompo minhas férias. Não por agenda, não por obrigação profissional, mas por consciência. Por coincidência. Dessas que a vida nos coloca no caminho. Estou na Suíça e acompanho de perto a comoção nacional causada pelo incêndio em Crans-Montana. O silêncio nas ruas, o tom contido dos noticiários, o respeito quase solene com que o tema é tratado dizem muito. Aqui, onde tudo parece funcionar, algo falhou. E falhou de forma brutal.


O acidente expôs uma verdade incômoda: o risco nunca está totalmente controlado. Nem aqui. Nem em outros países que admiramos pela organização, pela disciplina e pela seriedade institucional. A Suíça, referência global em planejamento, prevenção e resposta, vive agora o choque de perceber que descuidos, improvisos e decisões mal calibradas também atravessam fronteiras e culturas.


Quando dezenas de pessoas morrem e centenas ficam feridas em um espaço que deveria ser de celebração, não estamos diante de uma fatalidade isolada. Estamos diante de uma crise sistêmica. Crise de prevenção, de governança, de percepção de risco. Crise que não nasce no fogo, mas muito antes dele: nos materiais escolhidos, nas autorizações concedidas, nas rotas de fuga subdimensionadas, na normalização do “sempre foi assim”.


O que mais impressiona (e inquieta) é justamente isso ter acontecido aqui. Porque desmonta uma crença confortável: a de que países “irretocáveis” estariam imunes a tragédias dessa natureza. Não estão. Nunca estiveram. A Boate Kiss, no Brasil, ensinou isso de forma dolorosa. Crans-Montana reforça a lição em outra geografia, outro idioma, outra cultura, mas com a mesma consequência devastadora.


Segurança não é discurso, é processo. Não é certificado na parede, é prática diária. Não é custo, é investimento. E, sobretudo, não é um tema técnico restrito a engenheiros ou bombeiros. É uma responsabilidade ética que envolve gestores, empresários, autoridades públicas e também a sociedade, que muitas vezes aceita riscos invisíveis em troca de conforto, espetáculo ou conveniência.


Crises como essa nos lembram que governança não pode ser relaxada nos momentos de bonança. Que a prevenção precisa ser obsessiva, não protocolar. Que planos de emergência não podem existir apenas no papel. E que comunicação, antes, durante e depois de uma tragédia, é parte central da resposta, não para proteger reputações, mas para respeitar vidas.


Escrevo impactado, entristecido e, acima de tudo, alerta. Porque se isso aconteceu aqui, pode acontecer em qualquer lugar. O risco não dorme. Ele apenas espera. E cabe a nós decidir se vamos continuar fingindo que está tudo sob controle ou se vamos, finalmente, tratá-lo com a seriedade que ele exige.



 
 
 

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