O avesso do significado
- Luis Alcubierre

- 2 de nov.
- 2 min de leitura
Os últimos acontecimentos no Brasil e a conversa com um grande amigo da imprensa profissional me levaram a escrever este texto. É que o discurso tem se tornado um território de disputa tão intenso quanto o poder que ele representa. Palavras como ética, propósito e transparência, antes alicerces de sentido, parecem hoje recicladas em versões que já não contêm o espírito original. É o que a psicanálise e a filosofia chamam de perversão simbólica. Quando símbolos são mantidos, mas sua alma é substituída.
Lacan dizia que a perversão não é uma anomalia moral, mas o uso desviado da lei, uma inversão em que o sujeito usa o discurso da norma para satisfazer o próprio prazer. O filósofo francês Jean-Pierre Lebrun, em Um Mundo sem Limite, alertava que “a lei simbólica foi capturada pelo discurso da performance”. Em outras palavras, aquilo que deveria ordenar o mundo humano passou a legitimar a lógica do resultado.
Essa leitura ajuda a compreender o que tem acontecido nas redes, nas empresas e na política. A retórica da virtude virou ferramenta de manipulação. A perversão simbólica está no uso da linguagem do bem para encobrir o mal, na estética da empatia que disfarça a frieza estratégica, na defesa da diversidade que serve apenas para ilustrar relatórios. É o símbolo virado do avesso. Bonito por fora, vazio por dentro.
O maior perigo do nosso tempo não é a mentira, mas a verdade corrompida: "O sistema se sustenta quando a verdade é dita, mas de forma a reforçar a mentira estrutural que está inserida nela". Não sou eu quem está dizendo. Foi o filósofo esloveno Slavoj Žižek. Quer dizer, não se trata mais de esconder, e sim de reencenar o verdadeiro até que ele perca sua força.
Explica bem o que anda acontecendo, não?
Isso afeta profundamente o trabalho também. Quantas vezes vimos a palavra “colaboração” virar instrumento de controle? Ou “autonomia” se transformar em autoexploração? A perversão simbólica faz com que conceitos emancipadores passem a operar como mecanismos de sujeição.
Hoje, dados e informações chegam com a aparência de verdade. Mas o dado, isolado do contexto, pode ser armadilha. O maior desafio não é buscar informação, mas reaprender a interpretar. A informação é abundante; o discernimento, escasso.
Precisamos ser o filtro, não o algoritmo. O filtro humano que questiona, duvida, cruza fontes e não se satisfaz com a aparência do certo. Blindar-se não é isolar-se, mas preservar a capacidade de julgar por si mesmo.
No fim, o que está em jogo é mais do que semântica. É o próprio tecido da confiança social. Quando os símbolos perdem sua integridade, a comunicação se torna um campo minado. Reverter essa perversão exige coragem intelectual e humildade emocional. Coragem para duvidar e humildade para escutar.
Talvez a verdade, neste tempo de inversões, não esteja nas palavras bem ditas, mas naquelas que ainda carregam a simplicidade de quem não quer vencer o outro, mas compreender o mundo.






























































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