

O cotidiano da barbárie
Quatro episódios recentes ajudam a revelar algo mais profundo do que o mero absurdo cotidiano. Em Brasília, uma cliente agrediu uma atendente de lanchonete após receber um sanduíche com cebola, ingrediente que havia pedido para retirar. Em São Paulo, uma mulher atacou um cabeleireiro com uma faca pelas costas, insatisfeita com o resultado da franja e frustrada por não obter retorno via WhatsApp. Em Catanduva, pais invadiram o campo e agrediram o árbitro após uma partida de f


O afeto que não se explica
Há tristezas que chegam e nos surpreendem pela intensidade. Não porque perderam lugar central na nossa rotina, mas justamente porque ocupavam um espaço discreto, silencioso, quase invisível aos olhos apressados. Esta semana recebi a notícia da morte do Claudio, profissional que trabalhava na limpeza do meu prédio. Fiquei verdadeiramente tocado. Claudio não fazia parte do círculo clássico das relações que costumamos listar quando pensamos em vínculos "importantes". Nossos enco


A voz necessária
Chega uma hora em que falar o que sentimos parece sinônimo de autenticidade. Como se toda emoção merecesse imediata tradução em palavras. Mas a maturidade ensina outra lição, menos impulsiva e mais sofisticada: na hora de falar, nem sempre deve ser expresso o que se sente, mas o que precisa ser dito. Essa diferença, aparentemente simples, separa o impulso da responsabilidade. Sentir é legítimo. Todos sentimos irritação, vaidade ferida, ciúme, medo, desejo de revanche, necessi


A voz da ordem
Algumas falas, quando terminam, são rapidamente esquecidas. Outras permanecem porque recolocam ideias no lugar. O pronunciamento do Rei Charles III no Congresso dos Estados Unidos, nesta terça-feira, teve esse efeito raro. Em meio a uma era marcada por impulsos, hostilidade performática e debates convertidos em entretenimento, surgiu uma voz serena, ancorada na história e no senso institucional. Ao ouvi-la, muitos recordaram um tempo em que a palavra pública ainda buscava el


Cansei de escrever
E não foi pouco. Cansei com método, com disciplina e, sobretudo, com aquele ar levemente dramático que todo cansaço intelectual gosta de vestir. Cansei das teclas repetidas, das ideias que parecem inéditas até que alguém as publique cinco minutos antes. Cansei do café que esfria enquanto a frase não fecha e, principalmente, cansei da obrigação de ter opinião sobre tudo. Há dias em que a melhor contribuição ao debate público é um elegante silêncio. E eu, que sempre tive apreço


Nove espelhos, um País
Há diagnósticos que descrevem e outros expõem. O retrato recente do Brasil, consolidado no livro O Brasil no Espelho e repercutido na plataforma de jornalismo Meio, nasce de uma das mais amplas pesquisas já realizadas no país sobre valores. Liderado por Felipe Nunes, fundador da Quaest Pesquisa, o estudo ouviu mais de dez mil brasileiros em entrevistas profundas. Não se trata de opinião superficial, mas de uma imersão no que as pessoas pensam, sentem e temem. O que emerge des


Quando tudo pesa
Há dias em que acordamos com uma sensação incômoda de desalinhamento. Não é um graWireStocksso, nem um evento específico. É algo difuso e, por isso, mais difícil de reconhecer. As coisas simplesmente não parecem estar saindo como deveriam. E isso deixa dúvidas. O sentimento não é exceção. É parte do contrato de ser humano. Existe uma cobrança por consistência, por progresso linear. Mas a vida não responde como uma planilha. Ela oscila, resiste, recua. E, nesse movimento, nos


Não faz o menor sentido descartar os 50+
Há um sério desalinhamento entre discurso e prática no mercado de trabalho. Enquanto organizações afirmam valorizar diversidade, experiência e visão estratégica, ainda hesitam diante do profissional 50+. Não se trata de um conflito ideológico, mas de uma incoerência operacional. Simplesmente não há lógica consistente que sustente essa resistência. Os 50+ de hoje não guardam relação alguma com os de décadas atrás. Em um passado não tão distante, muitos ingressavam no mercado


Exclusivo: Por que não acredito em punições graúdas no Caso Master
Há um padrão silencioso no Brasil que se repete com a disciplina de um ritual. Escândalos emergem, indignações ganham tração, nomes poderosos são expostos, e por um breve momento cria-se a sensação de que, desta vez, o sistema será capaz de se corrigir. É nesse ambiente que o chamado Caso Master se insere. E é exatamente por conhecer esse roteiro que não acredito em punições graúdas. O país já viveu capítulos emblemáticos dessa promessa de ruptura. O Mensalão foi, à sua épo


A celebridade do abismo
Há crimes que chocam. Outros que, além de chocar, capturam. O caso de Suzane von Richthofen pertence à segunda categoria. Não apenas pela brutalidade do ato, ocorrido em 2002, quando participou do assassinato dos próprios pais, mas pela capacidade rara de permanecer no imaginário coletivo por mais de duas décadas. Em um ambiente de excesso informacional, isso não é trivial. É construção de imagem. O que deveria ser um percurso de esquecimento, como ocorre com a maioria dos co


























































