

Memória é método
Ser um bom jornalista vai além da técnica, da apuração correta ou do texto bem acabado. Tudo isso é básico, é premissa. O que diferencia, de fato, o bom jornalista daquele apenas competente é a sua memória informativa e, mais do que isso, o respeito que ele tem por ela. Escrevo este texto provocado por uma leitura feita durante as férias. Um artigo de Paulo Vinicius Coelho, o PVC, sobre a morte de Claudio Mortari, ex-técnico do Sírio e da Seleção Brasileira de basquete. O tex


A cadeira que fica de pé
Há uma cadeira imensa diante do Palácio das Nações, sede da ONU, em Genebra. Ela insiste em permanecer de pé mesmo quando a lógica estrutural diria que ela deveria tombar. A Broken Chair , com seus 12 metros de altura, é mais do que uma obra de arte monumental. É uma declaração. Um alerta global sobre as amputações humanas causadas por minas terrestres e munições de fragmentação. Mas também é, inevitavelmente, uma metáfora poderosa sobre outra forma de mutilação: aquela que


Sala de estar a 10 mil metros de altura
Viajar de avião virou um curioso teste de convivência humana. Em poucas horas, somos apresentados a comportamentos que desafiam qualquer manual básico de civilidade e, confesso, também a nossa paciência. Há o passageiro que assiste a vídeos sem fone, em volume máximo, como se estivesse oferecendo entretenimento coletivo. O que levanta antes do aviso, fura a fila do banheiro e ocupa o corredor como se tivesse prioridade moral. Pais que terceirizam a educação dos filhos para o


A pressa é inimiga da redação
A Fox News, tradicional aliada do presidente Donald Trump, cometeu um erro que rapidamente virou fogo amigo. Ao antecipar a informação sobre o cancelamento de vistos nos Estados Unidos, omitiu um dado essencial. Tratava-se apenas de vistos de imigração. A chamada reduziu tudo a “vistos”, termo amplo em um país que trabalha com mais de uma centena de categorias. O impacto dessa imprecisão foi imediato e desnecessário. Esse tipo de falha não espanta apenas pelo equívoco técnico


A pausa não é luxo. É estratégia.
V ivemos sob a tirania do contínuo. Do fluxo ininterrupto de mensagens, prazos, opiniões, demandas e expectativas. Tudo é urgente, tudo é agora, tudo compete pela nossa atenção. Nesse contexto, a pausa costuma ser vista como fraqueza, descompromisso ou até preguiça. Um erro conceitual grave. A pausa, quando bem compreendida, é um dos atos mais inteligentes de gestão da própria vida. Existem muitas pausas. A pausa curta, entre uma reunião e outra, que evita decisões ruins toma


Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada
Durante minhas férias, fiz questão de encontrar meu grande mentor na arte da negociação. Julián Gutiérrez Conde , ex-CEO, consultor de grandes organizações e escritor com 27 livros publicados, me recebeu em uma tarde fria, no salão silencioso de um hotel antigo, reestilizado, no coração de Madrid. Entre muitos assuntos, análises e reflexões, perguntei a ele o que é mais forte na obsessão humana: o poder ou o dinheiro? Julián não hesitou. Ajustou os óculos, sorriu com a seren


Sombras que nos governam
Há algo inquietante quando revisitamos o mundo invertido de Stranger Things. Aquele subsolo viscoso, onde tudo que conhecemos é distorcido, funciona como uma metáfora para a lógica do poder quando ele se desconecta de qualquer senso de humanidade. Ali, o Devorador de Mentes e Vecna se erguem como arquétipos da ambição que se alimenta do medo, do controle que se sustenta na corrosão do outro, da liderança que se impõe pela intimidação. E, quando olhamos para além da ficção, pe


Quando a força fala mais alto
A simples sinalização de uma ação militar dos Estados Unidos em relação à Venezuela já era, por si só, um fato político de alto impacto. Em um mundo hiperconectado, financeiramente interdependente e emocionalmente polarizado, não foi preciso que o primeiro tiro tenha sido disparado para que os efeitos começassem a se espalhar. É fundamental, antes de qualquer juízo apressado, compreender que ações militares nunca são eventos isolados. Elas são decisões estratégicas que carre


O risco nunca dorme
Interrompo minhas férias. Não por agenda, não por obrigação profissional, mas por consciência. Por coincidência. Dessas que a vida nos coloca no caminho. Estou na Suíça e acompanho de perto a comoção nacional causada pelo incêndio em Crans-Montana. O silêncio nas ruas, o tom contido dos noticiários, o respeito quase solene com que o tema é tratado dizem muito. Aqui, onde tudo parece funcionar, algo falhou. E falhou de forma brutal. O acidente expôs uma verdade incômoda: o ris


A noite em que as luzes ficaram mais perto
Na noite de Natal, a rua estava estranhamente silenciosa. Não era um silêncio bom, daqueles que descansam. Era um silêncio de gente que se acostumou a não falar. As casas tinham luzes piscando, mas poucas portas abertas. Eu fiquei olhando da janela e pensei que o mundo parecia bonito por fora e distante por dentro, como um presente bem embrulhado que ninguém tinha coragem de abrir. Mais cedo, ouvi adultos discutindo sobre guerras que não acabam, sobre políticos que prometem d




























































