

Quando o cuidado falha
Há uma tese antiga, simples e profundamente atual que ajuda a explicar muito do que estamos vivendo. Quando uma janela se quebra e ninguém a conserta, o recado que fica é que tudo pode ser quebrado. O psicólogo norte-americano Philip Zimbardo traduziu isso com precisão ao mostrar que o descaso não é neutro. Ele educa pela ausência. Ensina, sem palavras, que não há correção, que o erro permanece, que o ambiente tolera a quebra. Quando ninguém cuida, o sinal emitido não é lib


A difícil (e bela) arte de sobreviver
Quem disse que é fácil? Quem disse que era para ser fácil? Desde a concepção, a vida nos coloca em um fluxo contínuo de testes. Sobreviver é atravessar um percurso sem manual, com variáveis que mudam o tempo todo, exigindo leitura de contexto, capacidade de adaptação e decisões imperfeitas. É um projeto em permanente construção, onde o único KPI que nunca zera é seguir adiante. O ser humano nasce dependente, aprende a respirar, a cair, a levantar, a falar, a se frustrar. Apre


Master. Quando o fio desencapa
O caso Banco Master deixou de ser um episódio financeiro para se tornar um stress test institucional. A liquidação decretada pelo Banco Central abriu uma sequência de fatos objetivos: investigações da Polícia Federal, impacto potencial relevante no Fundo Garantidor de Créditos, contradições formais em depoimentos e disputas de competência entre reguladores e instâncias superiores. O que começou como um problema prudencial evoluiu para um teste de governança do Estado brasilei


Quem puxa a fila quando o mundo corre?
Toda tendência nasce antes de ser nomeada. Ela começa quase sempre de forma silenciosa, em um gesto, uma escolha, um desvio do óbvio. Só depois vira pauta, um “novo normal”. E aí surge a pergunta que volta e meia nos fazemos: afinal, quem cria tudo isso? Os trend setters não são, necessariamente, os mais barulhentos. Em essência, eles operam na fronteira entre sensibilidade e leitura de contexto. Enxergam antes porque observam melhor. Captam o espírito do tempo, o zeitgeist,


O tempo certo das vontades
Nem sempre podemos fazer o que queremos. E, ao contrário do que aprendemos cedo demais, isso não é um problema. É um dado da realidade. Há momentos em que o dinheiro impõe limites claros, outros em que o corpo pede mais cuidado do que ousadia, e muitos em que alguém ou algo precisa, legitimamente, ocupar o centro da decisão. Entender isso não é resignação. É inteligência aplicada à vida. Na juventude, a vontade costuma andar mais rápido do que o contexto. O desejo surge e ped


Petróleo, renda e o paradoxo da pobreza
A Folha de S.Paulo publica hoje matéria sobre a concentração na distribuição de renda do pré-sal no Brasil. Ela aborda a decisão que beneficia poucos municípios no país, mas se atém apenas aos motivos do por quê isso acontece e as razões que levam o STF a não destravar a discussão. A pergunta é legítima, mas prefiro fazer outra: por que cidades que recebem bilhões em royalties seguem com indicadores sociais tão frágeis? Alguns dados recentes ajudam a dimensionar a contradiç


O discurso que não entrega
As empresas falam muito sobre diversidade e inclusão. Está nos discursos, nos relatórios de sustentabilidade, nas campanhas institucionais e nas agendas de RH. O movimento é relevante e, em muitos casos, genuíno. Mas há uma distância evidente entre intenção e prática. E é justamente essa distância que precisamos observar com serenidade, ponderação e espírito crítico. Um exemplo claro dessa dissonância aparece nos dados do relatório “Diversidade, Equidade e Inclusão nas Organi


O prazer que mora na feira
Há experiências que, mesmo atravessando as fases da vida, permanecem como um porto seguro. Ir à feira é uma delas. Não é apenas o gesto funcional de abastecer a despensa. É um ritual de pertencimento. Um convite semanal para desacelerar, conversar, sentir e, de alguma maneira, reconectar-se com a essência do cotidiano. A feira é uma coreografia espontânea onde cores, aromas e sabores se misturam a afetos. Um lugar onde a lógica da pressa dá lugar a uma economia emocional, fei


Memória é método
Ser um bom jornalista vai além da técnica, da apuração correta ou do texto bem acabado. Tudo isso é básico, é premissa. O que diferencia, de fato, o bom jornalista daquele apenas competente é a sua memória informativa e, mais do que isso, o respeito que ele tem por ela. Escrevo este texto provocado por uma leitura feita durante as férias. Um artigo de Paulo Vinicius Coelho, o PVC, sobre a morte de Claudio Mortari, ex-técnico do Sírio e da Seleção Brasileira de basquete. O tex


A cadeira que fica de pé
Há uma cadeira imensa diante do Palácio das Nações, sede da ONU, em Genebra. Ela insiste em permanecer de pé mesmo quando a lógica estrutural diria que ela deveria tombar. A Broken Chair , com seus 12 metros de altura, é mais do que uma obra de arte monumental. É uma declaração. Um alerta global sobre as amputações humanas causadas por minas terrestres e munições de fragmentação. Mas também é, inevitavelmente, uma metáfora poderosa sobre outra forma de mutilação: aquela que



























































