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A pausa não é luxo. É estratégia.

Vivemos sob a tirania do contínuo. Do fluxo ininterrupto de mensagens, prazos, opiniões, demandas e expectativas. Tudo é urgente, tudo é agora, tudo compete pela nossa atenção. Nesse contexto, a pausa costuma ser vista como fraqueza, descompromisso ou até preguiça. Um erro conceitual grave. A pausa, quando bem compreendida, é um dos atos mais inteligentes de gestão da própria vida.


Existem muitas pausas. A pausa curta, entre uma reunião e outra, que evita decisões ruins tomadas no impulso. A pausa da respiração consciente, que devolve o corpo ao presente. A pausa do silêncio, cada vez mais rara, mas absolutamente necessária para organizar pensamentos. Há a pausa do luto, a pausa da dúvida, a pausa da escuta. E há aquela que, simbolicamente, carrega todas as outras: a pausa de final e de início de ano.


Essa pausa não é apenas uma convenção do calendário. Ela funciona como um marco psicológico e emocional. Um intervalo coletivo que autoriza o ser humano a sair do modo automático. A reduzir o ruído. A suspender, ainda que temporariamente, o papel profissional, o crachá invisível, a performance permanente. É o momento em que o cotidiano afrouxa o nó e permite que a vida volte a respirar.


No mundo corporativo, falamos muito de produtividade, eficiência, entregáveis e performance sustentável. Pouco se fala, porém, do combustível que sustenta tudo isso. Pessoas exaustas não inovam. Mentes sobrecarregadas não pensam com clareza. Emoções comprimidas cobram a conta, quase sempre em forma de ansiedade, irritabilidade ou adoecimento. Recarregar as baterias não é metáfora motivacional, mas fisiologia, é saúde mental, é estratégia de longo prazo.


A pausa também é um espaço de reconexão. Com a família, com amigos, com o corpo, com o sono, com leituras que não precisam virar post, com conversas que não geram KPI algum. É quando lembramos que somos mais do que a soma das nossas entregas. Mais do que agendas lotadas. Mais do que cargos e assinaturas de e-mail.


Curiosamente, é na pausa que muitas respostas aparecem. Não porque as procuramos com mais força, mas porque paramos de forçá-las. A pausa cria perspectiva. Distância saudável. Permite olhar o ano que passou sem o peso do julgamento imediato e o ano que entra sem a ansiedade paralisante do “tudo ao mesmo tempo”.


Fugir do cotidiano, ainda que por alguns dias, não é fuga no sentido pejorativo. É deslocamento. É mudar o ponto de observação. É lembrar que a vida não cabe inteira dentro da rotina, por mais organizada e bem-sucedida que ela seja.


Retornar da pausa não significa voltar igual. Volta-se diferente. Um pouco mais inteiro. Um pouco mais lúcido. Um pouco mais humano. E isso, no fim das contas, é o que sustenta qualquer projeto pessoal ou profissional que pretenda durar.


Pausar não é parar de viver. É garantir que a vida continue fazendo sentido quando o movimento recomeçar.



 
 
 

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