Sombras que nos governam
- Luis Alcubierre

- 12 de jan.
- 2 min de leitura
Há algo inquietante quando revisitamos o mundo invertido de Stranger Things. Aquele subsolo viscoso, onde tudo que conhecemos é distorcido, funciona como uma metáfora para a lógica do poder quando ele se desconecta de qualquer senso de humanidade. Ali, o Devorador de Mentes e Vecna se erguem como arquétipos da ambição que se alimenta do medo, do controle que se sustenta na corrosão do outro, da liderança que se impõe pela intimidação. E, quando olhamos para além da ficção, percebemos que essas sombras encontram um reflexo perturbador na vida real.
Darth Sidious, no universo de Star Wars, operava a partir da mesma equação sombria: manipular, dividir, criar caos para, no instante certo, oferecer “ordem”. Era o maestro invisível, sempre distante do conflito direto, sempre preservado pela couraça de quem descobre que o verdadeiro poder está em mover as peças, não em empunhar o sabre. E, ainda assim, por trás da máscara de grandeza, residia uma fragilidade abissal, o medo de ser contestado, de perder o domínio, de ser exposto. A arrogância era apenas a superfície e a vulnerabilidade, o alicerce.
É aqui que a ficção encontra a política contemporânea. Donald Trump, com sua retórica inflamada, sua máquina econômica monumental e a força militar sob seu comando, projeta a narrativa clássica do líder invencível, o “pica das galáxias”. Mas, no fundo, o filme é o mesmo: a busca incessante por validação, o pânico da irrelevância, a necessidade quase adolescente de provar que domina a narrativa, o tabuleiro, o planeta. Sua força se expressa mais pelo barulho do que pela substância, mais pela intimidação do que pela solidez moral, mais pela construção de um personagem do que por qualquer traço de grandeza.
O comum entre todos esses personagens, reais ou fictícios, está na inversão de valores que promovem. Vendem força, mas operam pelo medo. Vendem coragem, mas cultivam a covardia estrutural de quem não consegue existir sem destruir. Apresentam-se como inevitáveis, mas só prosperam em ambientes onde as pessoas já estão fragilizadas, cansadas, expostas. No fundo, todos vivem do mesmo combustível: a vulnerabilidade alheia.
E esse talvez seja o alerta mais sério. Neste momento em que o planeta parece deslizar com facilidade para um mundo invertido, ficamos expostos a lideranças que confundem grandeza com dominação, estratégia com brutalidade, protagonismo com devastação. O perigo não está apenas no que fazem, mas no quanto precisamos estar frágeis para que prosperem. Afinal, nenhum devorador de mentes opera sozinho. Ele se alimenta das rachaduras que ignoramos em nós mesmos, nas instituições e na sociedade.
É desconfortável admitir, mas necessário: seguimos vulneráveis a figuras que prometem ordem em troca de autonomia, segurança em troca de lucidez, direção em troca de humanidade. E, enquanto a ficção nos diverte com monstros, a vida real nos lembra que, às vezes, o monstro veste terno, sorri para as câmeras e comanda arsenais.






























































Comentários