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A noite em que as luzes ficaram mais perto

Na noite de Natal, a rua estava estranhamente silenciosa. Não era um silêncio bom, daqueles que descansam. Era um silêncio de gente que se acostumou a não falar. As casas tinham luzes piscando, mas poucas portas abertas. Eu fiquei olhando da janela e pensei que o mundo parecia bonito por fora e distante por dentro, como um presente bem embrulhado que ninguém tinha coragem de abrir.


Mais cedo, ouvi adultos discutindo sobre guerras que não acabam, sobre políticos que prometem demais e escutam de menos, sobre pessoas que brigam sem se olhar. Parecia que todos tinham opiniões grandes e paciência pequena. Eu não entendo tudo, mas sei quando algo está fora do lugar. E o mundo anda muito fora do lugar faz tempo.


Depois da ceia, minha avó apagou a televisão. Disse que Natal não combina com gritaria, nem com mentira repetida. Acendeu uma vela e pediu que cada um dissesse algo verdadeiro, sem pressa. Foi estranho no começo. Teve silêncio. Teve gente respirando fundo. Até que alguém falou, e outro ouviu. 


Não para responder, só para entender. A chama da vela tremia, mas não apagava.


Ali eu percebi uma coisa simples: quando a gente fala olhando nos olhos, o mundo diminui de tamanho. As certezas ficam menos duras, as diferenças menos ameaçadoras. Não é que todo mundo concordou. Ninguém concordou. Mas ninguém quis ferir. E isso, descobri, já é uma forma de paz.


Ano que vem vai ter eleição. Dizem que é um ano importante. Eu acho que todos os anos são. Sempre existe a escolha de repetir tudo, piorar tudo ou tentar fazer melhor. O caminho não aparece nos discursos mais altos, mas nas conversas mais honestas. Não nasce do medo, nasce do cuidado.


Quando fui dormir, as luzes da rua ainda estavam acesas. Mas pareciam diferentes. Mais próximas. Talvez porque, naquela noite, alguém decidiu ouvir antes de julgar, conferir antes de espalhar, pensar antes de ferir. E eu dormi acreditando que, se isso couber dentro de uma casa, também pode caber dentro de um país. 


Até os mundos mais difíceis melhoram quando alguém acende uma pequena luz e chama o outro para chegar mais perto.

Imagem: Unsplash

 
 
 

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