

A noite em que as luzes ficaram mais perto
Na noite de Natal, a rua estava estranhamente silenciosa. Não era um silêncio bom, daqueles que descansam. Era um silêncio de gente que se acostumou a não falar. As casas tinham luzes piscando, mas poucas portas abertas. Eu fiquei olhando da janela e pensei que o mundo parecia bonito por fora e distante por dentro, como um presente bem embrulhado que ninguém tinha coragem de abrir. Mais cedo, ouvi adultos discutindo sobre guerras que não acabam, sobre políticos que prometem d


Entre o cargo e conveniência
Há episódios na vida pública que não exigem adjetivos fortes nem julgamentos apressados. Eles se impõem sozinhos, pela força do contexto. Não é o fato isolado que preocupa, mas o ambiente que se forma quando funções institucionais elevadas passam a orbitar interesses privados em momentos sensíveis. É nesse território, cinzento e protegido pelos protocolos do poder, que a ética costuma ser testada. O que veio à tona revela mais do que uma troca de mensagens entre autoridades.


Um escândalo emocional chamado Corinthians
No início de novembro do ano passado, o Corinthians era um número ridículo. Um erro de arredondamento. Zero vírgula zero zero quatro por cento. Uma estatística que não se conta aos filhos nem se confessa aos amigos. Essa era a chance do clube se classificar para a Copa do Brasil de 2025. Àquela altura, parecia um paciente na UTI institucional, respirando por aparelhos administrativos para não cair à segunda divisão do Campeonato Brasileiro, tropeçando em si mesmo, atolado em


Entre a dopamina e o silêncio
Os números são eloquentes e, ao mesmo tempo, desconfortáveis. Uma pesquisa recente da Ipsos revela que 91% dos brasileiros acreditam que o mundo está mudando rápido demais. Outros 76% dizem sentir-se sobrecarregados pela quantidade de escolhas disponíveis. Nada menos que 73% afirmam desejar desacelerar o ritmo de suas vidas. E, talvez o dado mais simbólico desse tempo, 49% dizem preferir socializar com amigos no ambiente online do que presencialmente. Não são estatísticas i


Uma carreira de sorte
Nunca acreditei que a sorte substitui o talento. Mas sempre reconheci que, sem ela, o talento caminha mais devagar. No meu caso, a sorte não foi atalho nem muleta. Foi companhia constante. Às vezes discreta, às vezes escancarada. Desde cedo, tive a sensação de viver algo muito próximo do personagem Forrest Gump: eu apenas seguia em frente, fazendo o melhor possível, e quando percebia estava testemunhando, e participando, do melhor de cada fase, no lugar certo, na hora certa.


Sem luz, sem rumo
Quando o apagão deixa de ser exceção e passa a fazer parte da rotina, o problema já não é o clima, é a gestão. Em São Paulo, a repetição das crises elétricas expõe limites, responsabilidades e a urgência de decisões estruturais. O problema da Enel Brasil deixou de ser um episódio pontual para se tornar uma rotina previsível. A cidade voltou a viver ontem o mesmo drama: chuvas, ventos, árvores no chão, bairros inteiros às escuras e uma sensação coletiva de déjà-vu. Poucos di


Quando o ego tenta pautar a grade
Há momentos em que a indústria cultural é desafiada não por crises externas, mas por reações que revelam um descompasso entre maturidade institucional e percepção individual de poder. O episódio recente envolvendo um cantor sertanejo consagrado, que reagiu publicamente a um evento institucional do SBT , é emblemático desse ruído. O canal em questão promoveu um encontro estratégico para anunciar um novo projeto, um novo ativo de mídia, algo absolutamente legítimo dentro da ló


Ser vendido: sucesso ou fracasso?
Quando uma empresa muda de mãos, o mercado costuma reagir em modo automático: comemora-se o valuation , celebra-se a liquidez, fala-se em novo ciclo, sinergias, relançamento estratégico. Mas, por trás dessa espuma corporativa, existe uma pergunta incômoda que costuma ficar soterrada: quando uma empresa é vendida, estamos olhando para um caso de sucesso ou para um fracasso institucional? Ser vendido não é, por definição, nem sucesso nem fracasso. É consequência. E o julgamen


Os verdadeiros luxos dos tempos modernos
Vivemos um paradoxo silencioso. Em meio à economia orientada por métricas, produtividade e aceleração contínua, os luxos mais desejados do nosso tempo não são objetos, nem símbolos de status, mas condições intangíveis que se tornaram escassas e, por isso mesmo, valiosas. Carlos Alberto Piazza Timo Iaria , sempre atento aos movimentos da sociedade digital, resume essa nova hierarquia de prioridades com precisão: tempo, silêncio e privacidade. Três ativos que antes pareciam d


O décimo terceiro do desejo
Dezembro sempre chega com seu pacote simbólico de renovações. Um fechamento suave de ciclo, quase como aquela pausa estratégica que as empresas fazem antes de abrir o planejamento do ano seguinte. Mas, no fundo, o que buscamos nesse período não é apenas equilíbrio de contas emocionais. É algo mais íntimo, mais humano. Uma espécie de décimo terceiro da alma, um crédito extraordinário de desejo. É curioso perceber como as pessoas se sentem pressionadas a formular promessas de a




























































