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Memória é método

Ser um bom jornalista vai além da técnica, da apuração correta ou do texto bem acabado. Tudo isso é básico, é premissa. O que diferencia, de fato, o bom jornalista daquele apenas competente é a sua memória informativa e, mais do que isso, o respeito que ele tem por ela.

Escrevo este texto provocado por uma leitura feita durante as férias. Um artigo de Paulo Vinicius Coelho, o PVC, sobre a morte de Claudio Mortari, ex-técnico do Sírio e da Seleção Brasileira de basquete. O texto não era sobre a morte. Era sobre visão. Sobre uma previsão feita por Mortari, ainda em 1983, alertando que o futebol brasileiro entraria em decadência. Não por falta de talento, mas pelas transformações táticas e, sobretudo, físicas que mudariam o jogo no mundo inteiro e para as quais o Brasil não estava se preparando.

PVC poderia ter escrito um obituário correto, respeitoso e protocolar. Preferiu algo maior. Resgatou a memória. Buscou um registro quase esquecido para engrandecer um personagem que teve a coragem intelectual de enxergar o que outros não ousaram ver, nem mesmo após a derrota traumática de 1982, na Espanha. Esse é o ponto. Isso é jornalismo de alto nível.

Memória informativa não é saudosismo. Não é nostalgia. É método. É repertório. É capacidade de conectar passado, presente e futuro com responsabilidade. É entender que fatos não nascem do nada e que quase tudo o que vivemos hoje tem raízes, antecedentes, ensaios e alertas ignorados.

No jornalismo, a memória protege contra análises rasas, contra conclusões apressadas e contra o vício da manchete fácil. Ela dá densidade ao texto, contexto ao leitor e autoridade ao profissional. Quem tem memória não grita. Explica. Não reage. Interpreta.

Mas isso não vale apenas para jornalistas. Vale para todas as profissões. A memória é um ativo estratégico. Ela reúne caminhos já percorridos, erros cometidos, decisões acertadas e consequências vividas. Ignorar a memória é desperdiçar aprendizado. Respeitá-la é ganhar eficiência, profundidade e visão de longo prazo.

É por isso que escolas e famílias têm um papel central nesse processo. Fortalecer a memória não é viver no passado, é preparar o futuro. É garantir que as novas gerações saibam o que deu certo, mas, principalmente, o que deu errado. Porque os erros esquecidos tendem a ser repetidos. Sempre.

O bom jornalista, assim como o bom profissional de qualquer atividade, não é apenas aquele que informa. É aquele que lembra. E, ao lembrar, ajuda a sociedade a pensar melhor, decidir melhor e errar menos.

Memória não é acessório. É fundamento. E, em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, ela talvez seja o diferencial mais valioso de todos.



 
 
 

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