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A coincidência improvável e o uso oportunista do risco reputacional

Quando um estudante aparece, dias antes do ENEM, exibindo em uma live questões praticamente idênticas às aplicadas, não falamos de sorte. Falamos de algo que desafia a lógica e exige resposta imediata. Os mesmos números, os mesmos textos, a mesma estrutura. Uma coincidência tão improvável que levou o MEC a anular três perguntas.


O jovem alegou ter decifrado um "padrão de IA". Fui conversar com quem opera modelos avançados de algoritmos. A resposta foi rápida: "essa tese não para em pé". O Banco Nacional de Itens (plataforma do INEP) e os pré-testes sigilosos existem justamente para impedir qualquer previsão desse tipo. A probabilidade de acertar a formulação exata de uma questão por engenharia reversa é, tecnicamente, insignificante.


Quando a narrativa tecnológica não se sustenta, sobra o óbvio: quebra de sigilo. O próprio estudante admitiu ter participado desses pré-testes. Por sua vez, o INEP confirmou que os pilotos podem conter itens reaproveitados. A coincidência improvável deixa de ser enigma e passa a ser falha humana explorada sem pudor.


É aqui que o episódio ganha outra camada. A operação de comunicação que se seguiu mostra como, em ambientes frágeis, a oportunidade fala mais alto que a responsabilidade. A live, o discurso de genialidade, a narrativa heróica, tudo construído para alimentar a vaidade, capturar atenção e converter visibilidade em negócio. É o tipo de estratégia que poderíamos chamar de "uso oportunista do risco reputacional", quando uma pessoa ou organização explora deliberadamente uma situação que ameaça a reputação de outra entidade para obter algum tipo de vantagem a si mesma.


A verdade é que, enquanto instituições precisam de estabilidade, certos agentes prosperam no caos. Esse caso expõe uma dinâmica atual: quando a confiança pública vacila, o marketing predatório avança. E o que deveria ser um debate técnico, vira espetáculo. Não podemos jamais esquecer que do outro lado do tabuleiro há estudantes reais, que se prepararam corretamente e acabaram tornando-se figurantes involuntários de uma estratégia desonesta.


A Polícia Federal não investiga um prodígio da computação. Investiga a origem e a exploração estratégica de um acesso indevido. O país precisa dessa clareza. Não para alimentar polêmicas, mas para proteger a integridade de um processo que afeta milhões de jovens e define caminhos de vida.


Não estamos diante de um brilhantismo tecnológico. Estamos diante de uma lição sobre integridade, responsabilidade e governança. É hora de reforçar controles, restaurar a confiança e lembrar que nenhum marketing justifica o enfraquecimento de um exame que deveria ser, acima de tudo, justo.


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