A coincidência improvável e o uso oportunista do risco reputacional
- Luis Alcubierre

- 19 de nov.
- 2 min de leitura
Quando um estudante aparece, dias antes do ENEM, exibindo em uma live questões praticamente idênticas às aplicadas, não falamos de sorte. Falamos de algo que desafia a lógica e exige resposta imediata. Os mesmos números, os mesmos textos, a mesma estrutura. Uma coincidência tão improvável que levou o MEC a anular três perguntas.
O jovem alegou ter decifrado um "padrão de IA". Fui conversar com quem opera modelos avançados de algoritmos. A resposta foi rápida: "essa tese não para em pé". O Banco Nacional de Itens (plataforma do INEP) e os pré-testes sigilosos existem justamente para impedir qualquer previsão desse tipo. A probabilidade de acertar a formulação exata de uma questão por engenharia reversa é, tecnicamente, insignificante.
Quando a narrativa tecnológica não se sustenta, sobra o óbvio: quebra de sigilo. O próprio estudante admitiu ter participado desses pré-testes. Por sua vez, o INEP confirmou que os pilotos podem conter itens reaproveitados. A coincidência improvável deixa de ser enigma e passa a ser falha humana explorada sem pudor.
É aqui que o episódio ganha outra camada. A operação de comunicação que se seguiu mostra como, em ambientes frágeis, a oportunidade fala mais alto que a responsabilidade. A live, o discurso de genialidade, a narrativa heróica, tudo construído para alimentar a vaidade, capturar atenção e converter visibilidade em negócio. É o tipo de estratégia que poderíamos chamar de "uso oportunista do risco reputacional", quando uma pessoa ou organização explora deliberadamente uma situação que ameaça a reputação de outra entidade para obter algum tipo de vantagem a si mesma.
A verdade é que, enquanto instituições precisam de estabilidade, certos agentes prosperam no caos. Esse caso expõe uma dinâmica atual: quando a confiança pública vacila, o marketing predatório avança. E o que deveria ser um debate técnico, vira espetáculo. Não podemos jamais esquecer que do outro lado do tabuleiro há estudantes reais, que se prepararam corretamente e acabaram tornando-se figurantes involuntários de uma estratégia desonesta.
A Polícia Federal não investiga um prodígio da computação. Investiga a origem e a exploração estratégica de um acesso indevido. O país precisa dessa clareza. Não para alimentar polêmicas, mas para proteger a integridade de um processo que afeta milhões de jovens e define caminhos de vida.
Não estamos diante de um brilhantismo tecnológico. Estamos diante de uma lição sobre integridade, responsabilidade e governança. É hora de reforçar controles, restaurar a confiança e lembrar que nenhum marketing justifica o enfraquecimento de um exame que deveria ser, acima de tudo, justo.






























































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