O país que ainda insiste em tropeçar no óbvio
- Luis Alcubierre

- 18 de nov.
- 2 min de leitura
A liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central e a prisão de seu controlador não são apenas mais um escândalo financeiro. São um espelho incômodo da nossa velha mania nacional de tratar a trapaça como método e o atalho como cultura. Cada vez que um castelo de cartas cai, parecemos despertar por instantes, apenas para voltar a adormecer diante do mesmo roteiro.
O caso revela um país que ainda enxerga governança como detalhe e controle como formalidade. A tentativa de vender o banco a supostos investidores árabes, a liquidez deteriorada, as carteiras frágeis e as práticas que não resistem a um exame mais minucioso mostram o quanto vivemos à beira de riscos evitáveis.
Por outro lado, vimos instituições funcionando. O Banco Central agiu com maturidade, a Polícia Federal com agilidade, e a resposta coordenada impediu que o problema se transformasse em tragédia coletiva. É justo reconhecer o mérito de quem protege o investidor comum.
O pano de fundo social agrava o quadro. Um banqueiro que gasta cerca de vinte milhões na festa de quinze anos da filha cria um contraste brutal quando a origem dos recursos está sob suspeita. A ostentação não é crime, mas se torna símbolo cruel de um abismo moral que insiste em se repetir. Some-se a isso a proximidade com políticos e influentes, portas que se abrem com facilidade e silêncios convenientes. Esse ambiente fermenta práticas que deixam de ser exceção para virar modelo de negócio.
A sociedade brasileira, sobretudo a que participa da economia real, sabe que não há país que avance sem credibilidade, sem governança séria, sem ética como base de decisão. Não é discurso. É a pedra fundamental de qualquer ambiente de negócios que queira atrair investimento e gerar prosperidade de forma sustentável. Continuar tolerando a esperteza institucionalizada significa aceitar que o futuro seja sempre puxado para trás.
Precisamos levar o Brasil mais a sério. A começar por nós mesmos. A começar pela forma como tratamos o dinheiro alheio, a confiança pública e a responsabilidade que cada posição de liderança carrega. Quando normalizamos o desvio, fragilizamos o país. Quando enfrentamos a fraude com rigor, fortalecemos o que realmente importa.
Talvez o dia em que deixarmos de romantizar a esperteza e passarmos a celebrar a integridade seja o dia em que começaremos a virar essa página. Até lá, seguimos insistindo em aprender pela dor. Mas ainda dá tempo de escolher um caminho diferente.






























































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