Você tem que me ajudar a te ajudar
- Luis Alcubierre

- há 5 dias
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A frase, dita quase como piada em Tropa de Elite, virou retrato incômodo de uma cultura que fingimos não ver, mas que atravessa o dia a dia. Não é só bordão de um filme. É a senha informal de um sistema em que favores pessoais valem mais do que regras e onde combinados de bastidor atropelam qualquer tentativa de construir um país mais sério, previsível e minimamente ordeiro.
A malha fina dessa prática revela um país onde a ordem é desafiada por interesses privados e se transforma em fértil para que a ética vire obstáculo. Isso aparece na esquina, no balcão, no guichê, no gabinete. É o “quebra esse galho”, o “acelera meu processo”, que passa na frente de quem cumpriu o rito; ou o “tem como ajeitar aquele contrato?”, que transforma política pública em moeda de troca. Quando o acerto entre dois vale mais do que o direito de todos, não é esperteza, é corrosão silenciosa.
Nas empresas, favores informais minam a meritocracia, criando ambientes onde a ética se torna negociável. Promoções, indicações e decisões estratégicas deixam de seguir critérios claros e respondem a lealdades privadas ou conveniências. Como na esfera pública, quando cargos são loteados em troca de apoio. O resultado é previsível: gente competente desanima, medíocres se protegem em alianças e a cultura vira um campo minado de ressentimentos.
A governança exige clareza, responsabilidade e acima de tudo coragem para fazê-la valer. Quando deixamos o favor se infiltrar, destruímos confiança e estabilidade institucional. Regras viram sugestões, controles parecem burocracia inútil, compliance vira fachada. O que deveria proteger o coletivo se transforma em um sistema de atalhos para quem sabe “conversar direito”. E quando tudo depende de quem você conhece, ninguém confia plenamente em nada.
Cada favor funciona como uma gota de ácido corroendo estruturas. Isoladamente parecem inofensivos. Somados, constroem uma lógica em que quem tem acesso sempre encontra saída, e quem depende apenas das regras vive em desvantagem. Essa sensação de injustiça alimenta cinismo, desengajamento e a ideia de que só é ingênuo quem tenta fazer o certo.
O ponto central não é demonizar a ajuda, mas separar solidariedade de atalho. A ajuda legítima fortalece o conjunto. O “me ajuda que eu te ajudo” de bastidor faz o oposto: concentra poder, distorce critérios, destrói confiança. Se queremos um país mais civilizado, precisamos encarar esse traço cultural com menos romantização e mais responsabilidade. Enquanto a malandragem seguir disfarçada de gentileza, a conta seguirá alta e quase sempre paga por quem não tem a quem pedir nenhum favor.
Infelizmente ainda impera a lei do "quem quer rir, tem que fazer rir".

Foto: Annie Spratt | Unsplash





























































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