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Inteligência rara ou teatro de poder disfuncional?

A análise social parece estar exigindo menos celebração das lideranças e mais investigação das aberrações. Quando alguém se coloca acima das regras, aquelas que sustentam a convivência institucional, e justifica sua transgressão com argumentos simbólicos ou curiosos, estamos diante de uma encruzilhada filosófica e biológica.


Darwin já nos ensinou que a sobrevivência, em muitas espécies, segue vias tortuosas. Nem sempre vence o mais forte, mas o mais adaptável ao ambiente de conflito e pressão. Um clássico desde o ensino fundamental. No entanto, o que estamos vendo agora parece ir além. Trata-se da exibição de uma vontade de se libertar por meios que combinam improvisação absurda e audácia primitiva.


E é aí que Nietzsche entra com sua crítica mais incisiva. A “vontade de poder” dificilmente se expressa apenas como criação ou transformação positiva. Em certos casos, ela assume a forma grotesca de desespero performático. Um desrespeito à própria dignidade. Quando alguém, já sob restrições legais claras, decide adulterar seu sistema de monitoramento de maneira tão simbólica quanto ilegal, ele não apenas atrai atenção para si, mas incita seguidores a enxergarem nisso algum tipo de visão libertadora.


O mais perturbador, porém, não é apenas o ato, mas a comunidade que o enaltece. Há quem acredite que esse tipo de "rebeldia” represente uma audácia visionária que desafia o status quo. Mas o que se revela, na verdade, é uma conexão emocional. Seguidores mobilizados não pelo debate racional, mas por uma dramatização do risco e da exclusão.


Esse fenômeno expõe uma ferida institucional profunda. Aquela que se abre sempre que a liderança deixa de inspirar por projeto coletivo e passa a encenar o conflito como prova de virtude. A escolha desperdiça a chance de construir algo sólido, porque a verdadeira liderança ética não reside na transgressão simbólica nem na fuga teatral, mas no bom e velho diálogo, no compromisso com a responsabilidade e na integridade que permanece firme mesmo quando não há plateia.


No fundo, há uma falta de maturidade absurda em tudo isso e ela não se limita ao impulso individual, mas a tudo o que contamina o ecossistema que o legitima.


E, para sermos justos com o panorama completo, vale lembrar que as distorções não se resumen aos que desafiam o sistema de fora. Também existe, em quem ocupa o centro do palco institucional, uma tentação crescente de transformar cada gesto cotidiano em cena, cada decisão em narrativa, cada mensagem em performance.


Troca-se a construção pelo espetáculo, a entrega pela encenação, como se governar fosse menos serviço público e mais dramaturgia permanente. A grande pergunta agora é até quando vamos confundir espetáculo com inteligência e vulnerabilidade performática com coragem, especialmente quando o país paga o preço por uma insistente coreografia que substitui maturidade por improviso?

ree

 
 
 

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