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O soldado de superfície

A inspiração para este artigo veio de um post sensível da Ana Lucia Bacchelli, que reacendeu uma discussão urgente: a presença, ainda surpreendentemente comum, do profissional de aquisição de talentos que atua como um soldado de superfície. Alguém que se deslumbra com a embalagem e negligencia o conteúdo.


No dia a dia corporativo, essa figura continua se guiando por perfis impecáveis, discursos lapidados e reputações digitais tomadas como credenciais absolutas. É a lógica da vitrine: aparência como proxy de competência, fluência como substituto de experiência, marketing pessoal como atalho para prestígio.


Essa postura reverbera a ingenuidade clássica dos quadrinhos. O personagem que se impressiona com o uniforme limpo, mas não entende a missão; que vê pose, mas não percebe preparo; que confunde brilho com consistência. E, assim como no quartel, o equívoco não está na falta de candidatos, mas na incapacidade de enxergar o que realmente importa.


Esse viés ganha potência nas plataformas como LinkedInInfojobsIndeedGupyGlassdoor Brasil e muitas outras que reproduzem filtros os quais reforçam desigualdades estruturais. Seus algoritmos e seus pré-requisitos, desenhados por humanos, às vezes cometem os mesmos pecados do recrutamento tradicional: valorizam padrões, penalizam trajetórias não lineares e reforçam distorções em nome de uma suposta eficiência.


Enquanto isso, seguem chegando histórias silenciosas: gente que veste o que pode, mas entrega o que muitos não alcançam; profissionais que respondem com profundidade porque trazem prática acumulada; candidatos que oferecem verdade, preparo, maturidade e a coragem de quem atravessou a estrada com dignidade. Eles não brilham pela estética, mas pela substância.


Recrutar, portanto, exige mais do que técnica. Exige leitura humana, responsabilidade e consciência. É interpretar pessoas, não vitrines. É ir além do rótulo e enxergar quem realmente pode movimentar a organização. Quando um processo seletivo se limita ao que aparece, organiza-se para perder exatamente quem faria diferença.


O futuro das empresas pertence a quem consegue conectar potencial com impacto. Não a quem identifica poses ou cai na sedução do bom de lábia, mas a quem reconhece entregas. E esse movimento deveria começar com o olhar de profundidade.

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