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O cometa Real

  • há 4 horas
  • 2 min de leitura

Passados mais de trinta anos do Plano Real, o Brasil olha para trás e percebe que aquele momento foi mais do que uma política econômica. Foi um raro encontro de talento técnico, liderança política e senso de propósito público. Não se trata de romantizar o passado, mas de reconhecer que, em determinados momentos, um país consegue reunir um grupo capaz de enfrentar problemas estruturais com método, coragem e visão de longo prazo.


Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Gustavo Franco, Gustavo Loyola, Edmar Bacha, André Lara Resende, Armírio Fraga, Pérsio Arida e Rubens Ricupero não foram infalíveis. Houve críticas às privatizações, questionamentos sobre o ritmo das reformas e dúvidas sobre os efeitos sociais de algumas decisões. Parte da sociedade sentiu os custos da transição econômica, e há debates legítimos até hoje sobre escolhas feitas naquele período. Reconhecer essas imperfeições é essencial para evitar a armadilha da nostalgia acrítica.


Ainda assim, é impossível ignorar o tamanho do desafio que enfrentaram. O Brasil vivia refém de uma inflação crônica que destruía salários, inviabilizava planejamento e corroía a confiança nas instituições. Estabilizar a moeda significava reconstruir o próprio ambiente em que famílias, empresas e governos tomam decisões. O Real não foi só uma nova moeda. Foi um pacto de racionalidade econômica que devolveu previsibilidade à vida cotidiana do país.


A força daquele grupo estava menos na unanimidade e mais na convergência de propósito. Havia discordâncias técnicas, debates intensos e visões diferentes sobre o ritmo das reformas, mas havia também uma clareza estratégica rara. A estabilização monetária era vista como condição básica para que o Brasil pudesse voltar a pensar em crescimento, investimento e integração internacional.


Talvez por isso hoje muitos olhem para aquele período com a sensação de terem testemunhado algo semelhante à passagem de um cometa. Um fenômeno raro, luminoso e difícil de repetir. Não porque aquelas figuras fossem perfeitas, mas porque representaram um momento em que inteligência técnica, responsabilidade política e compromisso institucional caminharam na mesma direção. 


Na história das nações, esses alinhamentos são breves. E justamente por isso deixam marcas tão profundas. Falar hoje do Plano Real pode soar estranho. Mais de três décadas se passaram. 


Ainda assim, lembrar daquele momento talvez tenha menos a ver com economia e mais com a memória de um tempo em que o Brasil parecia acreditar na própria reconstrução. Havia divergências e críticas, mas o debate preservava respeito institucional e a percepção de que certos desafios exigiam consenso. 


Hoje o ambiente é mais fragmentado, marcado por polarização permanente, agressividade no debate público e desconfiança nas instituições. Talvez por isso o Plano Real ainda ilumine nossa história e nos faça olhar o presente com uma inevitável sensação de lamento.


Foto: Roberto Stuckert Filho / Agência O Globo

 
 
 

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