Convocados
- 19 de mai.
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Toda vez que uma grande empresa anuncia uma reestruturação, existe um momento silencioso que lembra muito a convocação da Seleção para a Copa do Mundo. As pessoas param. Observam os nomes. Tentam entender a lógica. Procuram coerência entre discurso e escolhas. E quase sempre surge a mesma sensação que hoje ronda a lista da CBF para 2026. Buscamos razões, mas principalmente critério.
Carlo Ancelotti foi inteligente ao admitir que a equipe não é perfeita. Nenhuma é. Nem no futebol, nem nas empresas. Organizações maduras não procuram perfeição. Procuram encaixe, consistência, equilíbrio emocional, repertório e capacidade de funcionar sob pressão. O problema começa quando as escolhas deixam de parecer técnicas e passam a soar apenas convenientes.
Porque todos percebem.
O atacante convocado por legado não é muito diferente do diretor mantido porque “sempre esteve ali”. O volante chamado por confiança pessoal lembra o gerente promovido pela proximidade com o poder. O executivo blindado apesar dos maus resultados se parece demais com aquele jogador que atravessa temporadas ruins, mas segue intocável porque possui capital político suficiente para sobreviver a qualquer fase.
As empresas gostam de vender a ideia da meritocracia absoluta. O futebol também. Ambos mentem um pouco.
Claro que competência importa. Mas ela divide espaço com relações, influência, histórico, interesses, proteção interna e capacidade de articulação. O problema não é a existência desses fatores. Eles sempre existiram. O problema é quando passam a valer mais do que desempenho, entrega e capacidade real de liderar.
É aí que nasce o cinismo.
As pessoas seguem ouvindo discursos sobre transformação, cultura e excelência, mas observam escolhas que contradizem tudo isso. E quando discurso e prática deixam de caminhar juntos, a confiança desaparece antes mesmo dos resultados.
O mais curioso é que o torcedor e o funcionário reagem de maneira muito parecida. Ambos continuam acreditando, ainda que com uma ponta crescente de resignação. Continuam vestindo a camisa. Continuam comparecendo. Mas já sem o espanto diante das derrotas. Porque, no fundo, entendem que existe algo errado na montagem do time.
Toda convocação revela mais sobre quem escolhe do que sobre os escolhidos.
No futebol e nas empresas, objetivos raramente fracassam por falta de talento. Normalmente fracassam porque alguém confundiu gestão com acomodação, confiança com dependência e coerência com conveniência.
E quando isso acontece, perde-se antes mesmo da bola rolar.





























































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