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O cotidiano da barbárie

  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Quatro episódios recentes ajudam a revelar algo mais profundo do que o mero absurdo cotidiano. Em Brasília, uma cliente agrediu uma atendente de lanchonete após receber um sanduíche com cebola, ingrediente que havia pedido para retirar. Em São Paulo, uma mulher atacou um cabeleireiro com uma faca pelas costas, insatisfeita com o resultado da franja e frustrada por não obter retorno via WhatsApp. 


Em Catanduva, pais invadiram o campo e agrediram o árbitro após uma partida de futebol de categorias de base, diante de crianças que deveriam estar aprendendo esporte e convivência.  Em Roma, durante a eliminação de João Fonseca no Masters 1000, parte da torcida brasileira ultrapassou o limite do apoio e transformou a arquibancada em ambiente hostil, desrespeitando a liturgia do tênis e o próprio espetáculo esportivo.

Em todos os casos, o gatilho parece pequeno. A reação, porém, foi imensa. O dano, real.

A pergunta que surge vai além do jurídico e do policial. Ela é civilizatória: o que está acontecendo com as pessoas?

Há algum tempo, a sociedade vem normalizando pequenos rompimentos emocionais. A impaciência virou traço de personalidade. A grosseria passou a ser confundida com autenticidade. A explosão emocional, muitas vezes, é tratada como sinceridade. E quando esses comportamentos deixam de ser contidos no campo simbólico, migram para o físico, ou para formas de intimidação coletiva.

Vivemos sob uma combinação perigosa de fatores. O primeiro deles é a cultura da urgência. Tudo precisa ser resolvido agora, do jeito que eu quero, no tempo que eu exijo. O erro humano, antes tolerado como parte da convivência, passou a ser interpretado como afronta pessoal.


O segundo fator é a hipertrofia do ego. Com a exposição permanente, muita gente passou a se enxergar como centro da experiência coletiva. Se algo sai errado, não é um contratempo, é uma ofensa. Não é uma falha operacional, é um ataque à identidade.

O terceiro ponto é a fragilidade emocional mal administrada. Ansiedade, estresse, frustrações acumuladas e falta de repertório para lidar com contrariedades encontram vazão em alvos próximos e vulneráveis. Atendentes, árbitros, profissionais de serviço, adversários, estranhos. Gente que está apenas exercendo seu papel.

Há ainda um componente silencioso: a erosão do respeito cotidiano. Quando uma sociedade deixa de valorizar quem serve, trabalha, organiza, arbitra, atende ou diverge, ela começa a adoecer por dentro. O tecido social se rasga primeiro nas bordas.

É importante dizer: indignação legítima existe. Serviços ruins existem. Erros existem. Decisões contestáveis existem. Reclamações fazem parte do mercado e da cidadania. O que não pode existir é a transformação de qualquer frustração em licença para humilhar, agredir ou ameaçar.


O paradoxo é evidente. Nunca tivemos tantos canais para resolver conflitos, SACs, ouvidorias, aplicativos, plataformas, câmeras, mediação digital. E, ainda assim, cresce a disposição para resolver tudo no grito, no empurrão, no ataque.

Talvez porque o problema nunca tenha sido a falta de canal. O problema é a falta de autocontrole.

A saída para essa tragédia começa em casa, onde se ensina que ninguém é superior a quem atende e que perder faz parte do jogo. Continua na escola, que deveria tratar inteligência emocional com a mesma seriedade com que ensina conteúdo. Passa pelos clubes, empresas e instituições, que precisam proteger suas equipes e estabelecer limites claros. E alcança o Estado, que deve punir com celeridade a violência travestida de destempero.

Mas há uma dimensão ainda mais íntima. Cada pessoa precisa reaprender a conviver com o erro, com a espera, com o não imediato, com a frustração e com a imperfeição alheia. Porque viver em sociedade é isso: administrar desconfortos sem destruir ninguém no processo.

No fundo, não estamos diante de casos sobre cebola, franja, arbitragem ou torcida. Estamos diante de pessoas que perderam a medida.

E quando uma sociedade perde a medida, a barbárie deixa de ser exceção. Passa a fazer parte do dia a dia. 



Foto: ev | Unsplash

 
 
 

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