A felicidade que não pede desculpas
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Hoje acordei feliz acima do nível normal. A notícia de uma vitória pessoal do meu filho atravessou o quarto antes mesmo da luz da manhã. Virou vitória minha também. Dessas que não cabem em planilhas, mas que reorganizam o dia inteiro. Fiz as camas em tempo recorde (e com a mesma qualidade), porque excelência não combina com euforia desleixada. Coloquei Bryan Ferry na "vitrola". Cantarolei faixas de Boys and Girls, Bête Noire e, claro, o meu preferido do Roxy Music, Avalon. Há trilhas que funcionam como governança emocional porque alinham o espírito e calibram o foco.
Tenho corrido todos os dias um pouco. Pode parecer banal, mas há muito não conseguia fazer isso com consistência. Pequenos rituais sustentam grandes estruturas. Alguns projetos seguem em velocidade de cruzeiro, cumprindo etapas, entregando valor, aproximando-se do destino que tracei lá atrás, quando ainda eram apenas hipóteses. Há uma serenidade produtiva em ver o planejamento encontrar a execução.
Mas não dá para fechar os olhos. Vorcaro foi preso de novo. A prisão em si pode soar protocolar. As razões, essas sim, são a notícia que preocupa. A guerra escala. De novo os mesmos protagonistas. Gente incapaz de negociar, incapaz de construir soluções. Gente triste com muito poder. E gente triste com poder é um risco sistêmico.
Mais um profissional competente foi demitido. É futebol, eu sei. É milionário, eu sei. Ainda assim, não é assim que se faz. Liderança não pode ser refém de resultado de curto prazo. Instituições fortes exigem coerência, processo e respeito. O mercado, seja ele esportivo, corporativo ou político, precisa aprender a diferenciar desempenho de caráter.
Tem mais. As meninas e as mulheres seguem sendo vítimas de abuso. E os homens passaram a portar um crachá invisível de risco e perigo. Inclusive os bons, os corretos, os honestos, os respeitadores. Na dúvida, elas desviam. Quem vai culpá-las? A erosão de confiança é um dos custos mais altos que uma sociedade pode pagar. Reconstruí-la exige mais do que discursos. Exige prática, exemplo, vigilância permanente.
Mais ainda. O preço da gasolina vai subir. A inflação será pressionada. Os planos do Banco Central para reduzir juros podem ser adiados.
Definitivamente o ambiente macroeconômico não se move ao sabor do nosso humor matinal. Ele responde a outras forças, muitas delas alimentadas por conflitos, populismos e decisões equivocadas.
Ainda assim, a minha felicidade é justa porque é minha. Não é alienação. Não é indiferença. É combustível. Vou curtir o meu momento, porque ele é legítimo. Mas não vou desmobilizar a consciência. Continuarei lutando por um espaço melhor, por uma sociedade mais equilibrada, por relações mais honestas. No que depender de mim, seguirei contribuindo, dialogando, construindo.
A felicidade que ignora o mundo é fuga. A que reconhece o mundo e, mesmo assim, escolhe agir, é maturidade. Essa, quando chega, não pede desculpas.

Foto: Markus Spiske | Unsplash




























































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