A Copa da Lei de Trump
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O caso Balogun é estarrecedor. Para quem não sabe, o jogador norte-americano Folarin Balogun, de ascendência nigeriana, foi expulso no último jogo dos Estados Unidos pelo árbitro brasileiro, Raphel Claus, mas o presidente Donald Trump mandou um recado em uma chamada telefônica: "cancelem o cartão vermelho do garoto e deixem ele jogar a próxima partida".
Independentemente dos detalhes específicos que ainda precisam ser esclarecidos, o episódio escancara algo que já vinha se desenhando desde o início desta Copa do Mundo: estamos diante de um torneio disputado sob um ambiente em que a previsibilidade do direito parece dar lugar à arbitrariedade. É a Copa da Lei de Trump.
Uma Copa do Mundo deveria ser o maior símbolo da circulação de pessoas, do encontro entre culturas e da convivência entre diferenças. O país-sede deveria oferecer segurança jurídica, acolhimento e confiança. Em vez disso, cresce a sensação de que decisões podem ser tomadas mais pela lógica da força do que pela das garantias.
O que mais impressiona é que o autoritarismo já nem faz questão de se disfarçar. Durante décadas, os Estados Unidos construíram uma autoridade moral que transcendia sua força econômica. Concordando-se ou não com sua política externa, havia a percepção de que as instituições do país eram sólidas e de que o Estado de Direito, ainda que de forma cambaleante, funcionava. Era esse patrimônio institucional que ajudava a explicar de alguma forma sua liderança.
Hoje, essa imagem está completamente desgastada. Os Estados Unidos continuam sendo a maior economia do planeta. Continuam liderando a inovação, a ciência e a tecnologia. Só que PIB compra infraestrutura. Não compra autoridade moral. Esta se constrói com instituições confiáveis, respeito às liberdades e tratamento previsível a cidadãos e estrangeiros.
Quando atletas, jornalistas e torcedores passam a temer não apenas a burocracia, mas também decisões arbitrárias, o problema deixa de ser esportivo. Torna-se institucional. Torna-se civilizatório.
Talvez por isso tanta gente passe a torcer pela Bélgica no duelo contra os Estados Unidos. Não por qualquer antipatia aos jogadores americanos, que não têm responsabilidade sobre esse contexto, mas porque a seleção acaba carregando, simbolicamente, o peso do país que representa neste momento histórico.
O futebol continua sendo decidido dentro de campo, mas Copas do Mundo também são feitas de símbolos. E o símbolo que esta edição começa a deixar é inquietante: o de um país que já foi admirado pelo seu poder e pelos valores que dizia defender, mas que hoje parece disposto a trocar a força do direito pelo direito da força.
Os Estados Unidos já inspiraram o mundo pelo que produziam e pelo que representavam. Hoje, caminham em direção ao risco de serem vistos como uma potência gigantesca em riqueza, mas cada vez menor em autoridade moral.
Nenhuma Copa do Mundo deveria servir de palco para essa transformação.





























































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