O afeto que não se explica
- há 2 dias
- 2 min de leitura
Há tristezas que chegam sem pedir licença e nos surpreendem pela intensidade. Não porque perderam lugar central na nossa rotina, mas justamente porque ocupavam um espaço discreto, silencioso, quase invisível aos olhos apressados. Esta semana recebi a notícia da morte do Claudio, profissional que trabalhava na limpeza do meu prédio. Fiquei verdadeiramente tocado.
Claudio não fazia parte do círculo clássico das relações que costumamos listar quando pensamos em vínculos importantes. Nossos encontros duravam um minuto, talvez menos. Um cumprimento no elevador, uma breve conversa sobre futebol, alguma observação sobre o dia. Falávamos do time do coração, trocávamos pequenas frases, dessas que parecem simples demais para merecer memória.
Há pessoas que entram em nossa vida sem cerimônia e, quando percebemos, já construíram morada no afeto. Claudio era assim. Jovem demais para partir, carregava no jeito uma bondade sem cálculo. Perguntava pelos meus filhos com interesse verdadeiro. Atendia qualquer pedido com educação rara.
Tinha a mãe em Pernambuco, uma filha de dezoito anos vivendo longe, e trazia nos olhos certa solidão que alguns aprendem a esconder, mas ele não. Demonstrava uma inocência comovente, uma transparência humana cada vez mais escassa.
Nestes tempos de conexões barulhentas, em que parece contar só os laços fotografados, os encontros marcados, os contatos salvos no telefone, sua presença era discreta. Mas a vida real sabe de outra verdade. Existem pessoas que nos sustentam sem alarde. Pessoas que compõem a paisagem afetiva dos dias. Gente que nos oferece algo valioso demais para caber em métricas: calor humano.
Difícil também foi contar ao meu filho. E ali compreendi algo ainda mais bonito. O carinho que eu sentia por Claudio também morava nele. Meu filho chorou. Chorou pela saudade dos encontros rápidos e felizes, pelo vazio que fica quando alguém bom desaparece, pela ausência de quem fazia bem sem saber. Talvez as crianças entendam antes de nós o valor dessas almas sutis.
Penso no Fernando, da pizzaria. No Adriano, da barbearia. Em tantos nomes que habitam a periferia elegante da nossa existência e, ainda assim, ajudam a sustentá-la. Não frequentam nossas festas, não conhecem nossa intimidade, não dividem feriados conosco. Mas dividem algo maior: o cotidiano. E é no cotidiano que a vida verdadeiramente acontece.
Talvez o afeto que não se explica seja esse. Um sentimento que nasce sem contrato, sem promessa, sem convenção social. Um carinho por quem apenas esteve ali, sendo gentil, sendo inteiro, sendo humano. Pessoas que nunca pediram espaço e, mesmo assim, conquistaram um lugar definitivo.
Elas chegam de mansinho, quase sem ruído, e deixam marcas. No fim, quando tudo passa, descobrimos que o coração não ama apenas os seus.
Ama também quem o tratou com bondade no caminho.

Foto: Engin Akyurt | Unsplash




























































Comentários