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Cansei de escrever

  • há 4 dias
  • 2 min de leitura

E não foi pouco. Cansei com método, com disciplina e, sobretudo, com aquele ar levemente dramático que todo cansaço intelectual gosta de vestir. Cansei das teclas repetidas, das ideias que parecem inéditas até que alguém as publique cinco minutos antes. Cansei do café que esfria enquanto a frase não fecha e, principalmente, cansei da obrigação de ter opinião sobre tudo. Há dias em que a melhor contribuição ao debate público é um elegante silêncio. E eu, que sempre tive apreço pela elegância, considerei seriamente adotá-lo. A verdade é que escrever, quando vira rotina, pode se parecer com uma esteira de academia. No início há entusiasmo, depois disciplina, e logo em seguida aquele ponto em que se olha para o relógio esperando que o tempo passe mais rápido. O problema é que, no meu caso, a esteira não desliga. Ela cobra consistência, atualidade, repertório. E o mundo, com sua vocação para a surpresa e o excesso, não ajuda. A cada manhã, um novo tema urgente. A cada tarde, uma nuance que invalida o texto da manhã. Confesso, cansei. Cansei também do risco permanente de simplificar o complexo. Há uma tentação perigosa em transformar tudo em tese, tudo em conclusão definitiva. E a vida, como se sabe, não assina contratos definitivos. Ela prefere os aditivos, os anexos, as ressalvas em letras miúdas. Escrever exige coragem para assumir incertezas. E isso cansa. Cansa porque não rende aplauso imediato. Às vezes não rende aplauso nenhum. Foi então que, nesse suposto esgotamento, percebi um detalhe curioso. Ao tentar parar de escrever, comecei a observar mais. Sem a pressa de concluir, passei a escutar melhor. Sem a obrigação de opinar, comecei a entender nuances que antes me escapavam. E, como um efeito colateral inevitável, as ideias voltaram. Mais organizadas, mais honestas, menos ansiosas por reconhecimento. Era como se o cansaço tivesse feito uma curadoria do que realmente valia a pena ser dito. E aí reside uma ironia que não posso ignorar. Aquilo que me levou a declarar exaustão foi exatamente o que me devolveu à escrita com mais apetite. Não se tratava de abandonar o ofício, mas de recalibrar o olhar. Escrever menos para dizer mais. Pensar mais para escrever melhor. Substituir o impulso pela intenção. Hoje, quando digo que cansei de escrever, já não falo de desistência. Falo de maturidade. De entender que escrever não é preencher espaços, mas construir sentido. E que, nesse processo, o texto deixa de ser apenas entrega e passa a ser ferramenta de análise, de aprendizado, de autocrítica. Talvez eu apareça menos. Ou talvez apenas respeite mais o intervalo entre uma história e outra. Há um certo prazer nesse tempo que não produz, mas amadurece. Escrever, no fim, não deve ser uma tarefa que busque aprovação. Deve ser um caminho para abrir espaços de diálogo, ainda que ele não venha na hora. E, se não vier, tudo bem também. Eu sigo escrevendo, lançando o texto ao mundo. Em algum momento, ele vai me entender. E eu, a ele.



Foto: Jonas Leupe | Unsplash

 
 
 

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