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Quando a terra treme, a humanidade desperta

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Vez ou outra a natureza parece nos lembrar, da forma mais dura possível, de que somos todos vulneráveis. Em poucos segundos, cidades desaparecem, famílias são separadas, histórias são interrompidas e sonhos ficam soterrados sob toneladas de concreto. Foi o que voltou a acontecer na Venezuela, onde um dos maiores terremotos de sua história mobiliza milhares de socorristas e comove o mundo inteiro.

Enquanto os números crescem a cada atualização, mortos, feridos, desaparecidos e desabrigados deixam de ser estatísticas para ganhar nomes, rostos e histórias. Mais de quarenta equipes internacionais de resgate trabalham ininterruptamente, vindas de dezenas de países, lado a lado com voluntários locais. Bombeiros, médicos, engenheiros, militares, cães farejadores e cidadãos comuns compartilham o mesmo objetivo. Salvar vidas. Cada minuto pode representar um reencontro ou uma despedida.

Pessoas atravessam oceanos para ajudar desconhecidos. Dormem pouco, alimentam-se mal, enfrentam riscos constantes e colocam suas próprias vidas em perigo por alguém cuja existência desconheciam até poucos dias antes. O sofrimento do outro passa a ser também o seu.

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl dizia que o ser humano é capaz de encontrar forças extraordinárias quando encontra um propósito. Talvez seja exatamente isso que move quem cava os escombros durante horas sem saber se encontrará alguém com vida. Não é a certeza do sucesso que os impulsiona, mas a esperança de que uma única vida salva justifique todo o esforço.

Para o psicólogo norte-americano Abraham Maslow, o mesmo da pirâmide das necessidades, uma das mais elevadas expressões da realização humana acontece quando deixamos de olhar apenas para nós mesmos e colocamos nossas capacidades a serviço do próximo. É curioso perceber que, justamente nos cenários mais devastadores, florescem alguns dos gestos mais nobres da condição humana.

Vivemos tempos em que somos estimulados a enxergar muito mais aquilo que nos separa do que aquilo que nos aproxima. Discutimos ideologias, nacionalidades, religiões, fronteiras, diferenças culturais e interesses particulares. Mas basta um prédio desabar para que tudo isso perca importância.

Os escombros nivelam a humanidade.

Ninguém pergunta em quem votou a pessoa soterrada. Ninguém procura saber sua religião antes de oferecer água. Ninguém questiona sua nacionalidade antes de remover uma viga de concreto que pode devolver a vida.

Naquele instante, existe apenas um ser humano tentando salvar outro ser humano.

A psicologia chama isso de heroísmo cotidiano. Não é preciso possuir superpoderes para praticá-lo. Basta decidir que o sofrimento de alguém merece a nossa ação. Talvez seja essa uma das maiores virtudes da espécie humana. Somos capazes de transformar desconhecidos em prioridades quando compreendemos que a dor não conhece fronteiras.

É impossível assistir a cenas como essas sem fazer um exame silencioso da própria vida. Quantas preocupações que pareciam enormes revelam-se pequenas diante de uma tragédia dessa dimensão? Quantas discussões que consumiram dias inteiros perderiam completamente o sentido diante da possibilidade de perder quem amamos? Quantos ressentimentos sobreviveriam se soubéssemos que o amanhã talvez não chegasse?

Os terremotos derrubam edifícios, mas também derrubam ilusões.

Lembram-nos de que patrimônio pode desaparecer, cargos podem perder importância, agendas podem ser interrompidas e planos podem deixar de existir de uma hora para outra. O que permanece é aquilo que sempre teve valor, mesmo quando insistimos em esquecer. A vida. Os vínculos. A solidariedade. A capacidade de estender a mão.

Possivelmente essa seja a maior lição que emerge entre os escombros. Não são as máquinas que sustentam o mundo. Nem os governos. Nem as instituições. São pessoas. Pessoas que decidem cuidar umas das outras quando tudo parece perdido.

É triste constatar que, tantas vezes, precisamos que a terra trema para recordar aquilo que realmente sustenta a humanidade.

Quem sabe o verdadeiro desafio não seja esperar pela próxima tragédia para sermos melhores. Que a compaixão demonstrada nesses dias não permaneça confinada aos noticiários. Que ela encontre espaço nas pequenas escolhas do cotidiano, onde raramente há câmeras, manchetes ou reconhecimento.

No fim de tudo isso a grandeza de uma sociedade não deveria ser medida apenas por seus talentos para construir cidades e criar tecnologia, mas por sua disposição de resgatar e reconstruir vidas.


Foto: Federico Parra / AFP

 
 
 

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