Quem ainda nos inspira?
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Quem influenciava no passado? Na música, Bach, Beethoven, Vivaldi, Tchaikovsky. Mais tarde vieram os Beatles, os Rolling Stones, Led Zeppelin. Nas artes plásticas, Goya, Michelangelo, da Vinci, Picasso, Salvador Dalí. Na literatura, Dostoiévski, Victor Hugo, Orwell, James Joyce. No teatro, Stanislavski, Shakespeare, Flávio Rangel, Plínio Marcos. Foram muitos. E de todos os segmentos da sociedade.
Não eram só famosos. Eram referências. Gente que provocava desconforto intelectual, questionava a sociedade, ampliava o repertório humano e, muitas vezes, obrigava o público a encarar verdades perturbadoras. Influenciar, naquele contexto, era consequência de uma obra. Hoje, em muitos casos, a influência virou produto sem obra, embalagem sem conteúdo, alcance sem profundidade.
Longe de acreditar que antes tudo era melhor, porque não era, o que se percebe agora é uma deterioração preocupante do valor atribuído ao pensamento crítico. Há exceções brilhantes, evidentemente. Jovens extraordinários continuam surgindo em universidades, laboratórios, empresas, coletivos culturais e movimentos sociais. Mas a média cultural parece ter feito um pacto com a superficialidade. A recompensa contemporânea abriu mão de compreender o mundo para performar a ele.
O problema não é existir influenciador. Toda geração teve seus comunicadores populares. O problema começa quando o influenciador substitui a referência intelectual. Quando a capacidade de entreter passa a valer mais do que a capacidade de refletir. Quando a opinião improvisada derrota o conhecimento construído. Quando milhões de pessoas passam a seguir alguém não porque essa pessoa estudou, pesquisou, escreveu, investigou ou criou algo relevante, mas simplesmente porque aprendeu a dominar o algoritmo e a emoção instantânea.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han alerta há anos para a sociedade do cansaço e da hiperdistração. Para ele, a avalanche de estímulos destrói nossa capacidade de contemplação e profundidade. O escritor Neil Postman já previa isso nos anos 1980, quando escreveu que as sociedades modernas estavam “se divertindo até morrer”. O psicólogo norte-americano Jonathan Haidt tem chamado atenção para os efeitos da hiperconectividade e das redes sociais na formação emocional e cognitiva das novas gerações.
O que provavelmente seja o sinal mais preocupante é a naturalização da mediocridade intelectual como estilo de vida aspiracional. Já não é mais necessário dominar um tema. Basta parecer convincente diante de uma câmera. Não é preciso profundidade. Basta engajamento. Não é preciso coerência. Basta viralizar. Criou-se uma multidão de seguidores que consome frases rasas como se fossem grandes descobertas existenciais. E essa massa de espectadores, muitas vezes anestesiada pela busca permanente de diversão, financia pessoas que mal dominam o próprio idioma, mas ensinam sobre sucesso, riqueza, comportamento e felicidade como se fossem oráculos contemporâneos.
Existe uma diferença gigantesca entre comunicar e construir legado. Uma referência intelectual atravessa gerações porque entrega densidade humana. Um influenciador digital, salvo raríssimas exceções, vive da urgência do próximo conteúdo. Um constrói pensamento. O outro precisa alimentar a máquina diariamente para continuar existindo.
Paulo Freire dizia que a educação deveria formar indivíduos capazes de ler o mundo, não apenas as palavras. O que vemos hoje, em muitos ambientes digitais, é justamente o contrário. Jovens treinados para consumir histórias rápidas, sem contexto, sem dúvida, sem reflexão e sem silêncio. Porque o silêncio também assusta uma geração que desaprendeu a conviver com ela mesma.
Há ainda um efeito social devastador nessa lógica. A ostentação virou indicador de sucesso moral. O dinheiro virou argumento definitivo. O poder virou objetivo final. E qualquer debate mais sofisticado sobre ética, responsabilidade coletiva, cultura, desigualdade ou equilíbrio social parece perder espaço para vídeos de quinze segundos e opiniões embaladas como entretenimento.
Enquanto isso, o mundo real continua funcionando com enorme complexidade. Empresas seguem exigindo competência. Democracias seguem pedindo discernimento. Relações humanas demandam maturidade emocional. A vida adulta continua cobrando repertório, disciplina, resiliência e capacidade de interpretação. O algoritmo pode até premiar o vazio por algum tempo, mas a realidade costuma ser menos tolerante com improvisações permanentes.
Não é um risco jovens sonharem em ser influenciadores. O risco é uma sociedade deixar de admirar quem pensa, estuda, cria, pesquisa, escreve, compõe, questiona e produz conhecimento. Quando referências intelectuais perdem espaço para celebridades da superficialidade, o empobrecimento cultural deixa de ser uma consequência. Ele passa a ser um projeto coletivo. E eu não quero estar mais aqui quando isso acontecer. Porque vai acontecer.





























































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