Quando o futebol revela o que tentamos esconder
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No domingo, no Mineirão, Cruzeiro e Atlético protagonizaram mais do que a final de um campeonato. Protagonizaram um retrato incômodo do nosso tempo. O árbitro Matheus Candançan registrou na súmula algo que parece absurdo até de escrever: 23 jogadores expulsos após uma briga generalizada entre atletas das duas equipes. Foram 12 do Cruzeiro e 11 do Atlético.
A confusão começou nos acréscimos da partida, depois de um choque entre o goleiro atleticano Everson e o meia Christian. O que deveria ser apenas mais um lance de jogo degenerou rapidamente em uma sequência de agressões, socos, chutes e voadoras. Em poucos segundos, atletas, reservas e membros das comissões técnicas estavam envolvidos na pancadaria, exigindo intervenção da segurança e da polícia para conter o tumulto. Se bem que houve segurança batendo também.
Na segunda-feira, como costuma acontecer, veio o roteiro previsível. Jogadores publicaram notas, vídeos e textos nas redes sociais pedindo desculpas. Admitiram o erro. Falaram em cabeça quente. Prometeram aprender. Mas talvez a pergunta relevante não seja por que eles brigaram. A pergunta mais difícil é por que nos tornamos uma sociedade cada vez mais propensa a explodir.
Há um dado adicional, ainda mais perturbador. Enquanto os jogadores trocavam socos em campo, parte da torcida vibrava nas arquibancadas. Nas redes sociais, multiplicaram-se comentários tratando a cena como espetáculo. Vídeos compartilhados com emojis de aplausos. Frases celebrando a “raça”. Memes glorificando a pancadaria.
Em muitos momentos, parecia menos um estádio de futebol e mais uma arena romana em pleno século XXI. A multidão não separa os gladiadores. Ela vibra com o combate. Barbárie é isso.
A psicologia social tem pistas interessantes para entender esse fenômeno. O psicólogo americano Philip Zimbardo, conhecido pelo Experimento da Prisão de Stanford, demonstrou como contextos de grupo podem reduzir drasticamente o senso individual de responsabilidade. Quando a identidade coletiva se sobrepõe à individual, comportamentos que normalmente seriam inaceitáveis passam a parecer legítimos. O indivíduo se dilui na massa. E a massa, muitas vezes, age de forma mais agressiva do que qualquer pessoa isoladamente.
O futebol potencializa exatamente esse mecanismo. Rivalidade tribal. Identidade de grupo. Emoção amplificada. Um estádio cheio. Câmeras. Pressão. Adrenalina. Só que seria confortável demais fingir que isso acontece apenas no futebol.
Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um aumento preocupante de episódios de agressão em diferentes ambientes. Violência contra a mulher, brigas de trânsito que terminam em morte, conflitos em festas, bares e condomínios que rapidamente escalam para agressões físicas. Pequenas frustrações que, de repente, se transformam em explosões desproporcionais.
O campo de futebol, nesse sentido, não é uma exceção. Ele é um espelho. Quando atletas profissionais, preparados física e psicologicamente, expostos à maior visibilidade possível, se comportam como primatas em disputa territorial, o que vemos ali não é apenas uma falha esportiva. É um sintoma cultural.
E talvez esteja na hora de reconhecer que o problema não se resolve apenas com suspensões ou punições disciplinares. A raiz é mais profunda. Passa por educação emocional, por exemplo público, por ambientes que valorizem autocontrole, respeito e responsabilidade. Porque se continuarmos tratando episódios como esse apenas como “coisas do futebol”, estaremos ignorando um alerta maior.
A pancadaria no Mineirão não foi apenas uma briga entre jogadores. Foi um lembrete de que a linha entre civilização e barbárie é mais fina do que gostaríamos de admitir. E que preservar essa linha exige um esforço coletivo muito maior do que simplesmente pedir desculpas no dia seguinte.

Foto: Flávio Tavares | O Tempo




























































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