A crueldade diante do goleiro
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Há uma solidão que só o goleiro conhece. Ela não aparece nos treinos, nas entrevistas ou nas fotografias da equipe. Surge apenas no instante em que a bola escapa, cruza a linha e o estádio inteiro encontra um culpado. Em poucos segundos, uma trajetória construída ao longo de anos parece desaparecer.
Nesta Copa do Mundo, isso aconteceu novamente. Fernando Muslera defendeu o Uruguai com dedicação ao longo de quase duas décadas. Acumulou partidas memoráveis, classificações históricas e intervenções que mantiveram seu país vivo em inúmeras competições. Bastaram algumas falhas, justamente no maior palco do futebol, para que muitos resumissem sua história a esses poucos instantes.
A história do goleiro, qualquer goleiro, é uma das maiores injustiças do esporte. O centroavante pode desperdiçar três oportunidades claras de gol. Se marcar aos quarenta minutos do segundo tempo, será carregado nos ombros. O meia pode errar passes durante toda a partida. Um lançamento genial basta para que tudo seja esquecido.
Com o goleiro não existe esse direito. Ele pode realizar dez defesas impossíveis. Pode impedir um placar elástico. Pode manter seu time vivo durante noventa minutos. Se falhar uma única vez no momento decisivo, todo o restante deixa de existir. No fundo, a memória coletiva costuma ser implacável com quem veste luvas.
Foi assim com Barbosa em 1950. Não importa quantas partidas extraordinárias tenha feito antes daquele Mundial. Para muitos, sua carreira passou a caber em um único lance.
Décadas depois, continuava pagando uma conta que jamais deveria ter sido apenas sua. O futebol encontrou um rosto para explicar uma derrota coletiva. Seria essa uma forma mais confortável de lidar com o fracasso?
Encontrar um culpado é sempre mais simples do que compreender uma realidade complexa. Uma derrota nunca pertence apenas ao goleiro. Assim como uma vitória nunca pertence apenas ao artilheiro. Mas nossa necessidade de simplificar as histórias costuma vencer a verdade.
A paixão pelo esporte produz cenas maravilhosas. Ela aproxima gerações, cria memórias e desperta sentimentos que poucas experiências conseguem provocar. Mas essa mesma paixão, quando perde a medida, também nos desumaniza.
O torcedor tem o direito de sofrer. O jornalista tem o dever de analisar. Nenhum deles, porém, deveria esquecer que do outro lado existe um ser humano.
Errar nunca deixa alguém feliz. Mas é curioso perceber que uma defesa extraordinária raramente recebe o mesmo peso emocional de um único erro. O acerto é tratado como obrigação. A falha, como pecado.
Possivelmente porque apontar o erro do outro nos oferece um alívio silencioso. Enquanto julgamos quem fracassou diante de milhões de pessoas, conseguimos esconder, por alguns instantes, os nossos próprios fracassos. Aqueles que ninguém viu, mas que carregamos conosco.
É por isso que sempre sinto um aperto diferente quando vejo um goleiro caminhar sozinho depois de uma derrota.
Talvez porque eu seja pai de um goleiro.
Aprendi que essa posição exige muito mais do que reflexo, técnica ou coragem. Exige uma resistência emocional rara. O goleiro convive diariamente com a consciência de que seus grandes acertos serão rapidamente esquecidos, enquanto um único erro poderá acompanhá-lo por muitos anos.
Ainda assim, ele volta para o treino no dia seguinte. Coloca novamente as luvas. Enfrenta outra bola, outro atacante, outra decisão. Existe muita grandeza nisso.
A vida, afinal, também nos coloca muitas vezes na posição de goleiro. Acertamos durante meses, durante anos, mas somos julgados pelo erro mais visível. Somos reduzidos ao instante em que falhamos, como se todo o restante deixasse de existir.
Está na hora de aprendermos a conceder aos outros aquilo que esperamos receber quando chegar a nossa vez. O direito ao erro. E, principalmente, o direito ao perdão.

Foto: AP Photo/Fernando Llano




























































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