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A força das palavras de uma mãe

  • há 22 horas
  • 2 min de leitura

Ela atravessou o oceano trazendo pouco nas mãos e muito na memória. Uma infância interrompida cedo demais, marcada por ausências, silêncios e pela necessidade de crescer antes do tempo. Ainda assim, o que chegou ao Brasil não foi uma mulher endurecida. Foi alguém que decidiu, quase como um ato de resistência, ser o oposto de tudo aquilo que viveu.


Minha mãe não acumulou estudos formais, mas acumulou mundo. Aprendeu no rádio, na curiosidade que nunca lhe faltou. Conhecia história como quem viveu capítulos dela. Admirava música clássica com uma devoção que não se explica, se sente. E quando cantava, especialmente o cante jondo (canto flamenco), havia ali uma verdade que dispensava qualquer tradução.


Ao lado do meu pai, construiu uma vida simples, porém cheia de intenção. Vieram jovens, com sonhos quase pragmáticos. Queriam filhos. Vieram. Queriam um futuro melhor do que o passado que deixaram. Trabalharam por isso.


Mas o maior legado que recebi não veio de planos, nem de conquistas materiais. Veio do cotidiano. Da repetição de gestos e palavras. Não havia um dia na minha infância em que minha mãe não me olhasse e dissesse que eu era lindo. Não havia um dia em que deixasse de afirmar que eu era inteligente. A realidade, muitas vezes, não confirmava esse diagnóstico com tanta clareza. Eu era um aluno comum, sem grandes destaques. Mas, dentro de casa, eu era visto de outra forma.


E isso constrói algo profundo.


Porque uma criança aprende a se enxergar a partir do olhar que recebe. E, quando esse olhar é generoso, consistente e carregado de afeto, ele cria uma base difícil de abalar. Minha mãe não ignorava erros. Havia correção, havia firmeza. Mas nunca houve desqualificação. O erro era pontual. O valor era permanente.


Ela, que teve tão pouco, foi abundante no que mais importa.


Com o tempo, a vida foi se abrindo. Os estudos, que demoraram a fazer sentido, tornaram-se chave. E quando finalmente despertaram em mim, encontraram terreno fértil. Não por acaso. Havia ali uma convicção silenciosa, construída ao longo dos anos, de que eu era capaz.


Demorei a entender que aquela confiança não nasceu do nada. Foi plantada. Regada todos os dias. Palavra por palavra.


Existe um poder imenso na forma como mães se comunicam com seus filhos. Não é apenas carinho. É formação. É construção de identidade. É definição de limites e, ao mesmo tempo, de possibilidades.


Em um mundo que frequentemente aponta falhas com rapidez e pouca generosidade, o ambiente de casa ganha papel ainda mais relevante. É ali que se constrói a base emocional que sustenta decisões, enfrentamentos e escolhas ao longo da vida.


Minha mãe poderia ter escolhido o caminho da dureza. Teria justificativa. Mas escolheu o cuidado. Escolheu afirmar, mesmo quando a realidade ainda não confirmava. Escolheu acreditar antes.


E talvez seja essa a maior lição. Palavras que dizemos a uma criança não ficam no ar. Elas ficam dentro. Cedo ou tarde, tornam-se verdade.



Foto: Arquivo Pessoal

 
 
 

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