O talento não deveria comprar absolvição
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O Brasil tem uma relação interessante com seus ídolos no futebol.
Quando alguém demonstra um talento extraordinário, passamos a tratá-lo como se esse dom fosse uma espécie de salvo-conduto moral. A qualidade passa a funcionar como uma licença sem limites.
É um fenômeno que atravessa o futebol, a política, os negócios e até o nosso cotidiano. Nos últimos anos, ouvimos inúmeras vezes a mesma frase: "Setenta por cento do craque ainda é melhor do que qualquer outro jogador."
Talvez seja verdade.
O problema é que os outros trinta por cento importam. Importam porque são justamente eles que determinam se o jogador estará em campo. Se terá condições físicas de competir. Se conseguirá assumir responsabilidades quando o país mais precisar. Se será lembrado pelo que fez ou pelo que poderia ter feito.
Somos uma nação que aprendeu a admirar a genialidade improvisada, o drible impossível, a solução que surge onde ninguém enxergava saída. Mas existe uma diferença entre admirar o talento e se tornar refém dele.
Durante muito tempo, aceitamos que a genialidade compensasse tudo. Compensasse as polêmicas. Compensasse os excessos e as escolhas equivocadas. Compensasse a incapacidade de compreender o peso que acompanha a condição de ídolo.
O verdadeiro ídolo não deveria inspirar apenas quando vence. Deveria inspirar pelo comportamento, pelas escolhas, pela forma como lida com os privilégios que recebeu. Deveria entender que milhões de crianças observam não apenas seus gols, mas também suas atitudes.
É justamente aí que o debate se torna mais importante.
O Brasil parece ter criado uma geração que aprendeu a valorizar mais a exposição do que o exemplo. Mais a visibilidade do que a construção de caráter. Mais o ter do que o ser.
Não se trata de exigir perfeição de ninguém. Seres humanos erram. Todos erram. O problema começa quando o erro deixa de ser exceção e passa a ser tratado como parte aceitável do pacote, desde que venha acompanhado de talento.
É nesse momento que a paixão deixa de enxergar.
O torcedor apaixonado faz com seus ídolos exatamente o que muitos eleitores fazem com seus políticos. Ignora defeitos evidentes porque acredita que determinadas virtudes compensam o restante. Fecha os olhos para aquilo que condenaria em qualquer outra pessoa.
A paixão não apenas distorce a realidade. Muitas vezes a substitui.
Pode ser que essa seja a principal lição de mais um capítulo da longa história do futebol brasileiro. Nenhum talento é grande o suficiente para dispensar responsabilidade. Nenhuma genialidade deveria servir como escudo contra a crítica. E nenhum ídolo deveria ser admirado apenas pelo que faz com os pés, quando suas atitudes fora de campo falam tão alto quanto seus feitos dentro dele.
O Brasil continuará produzindo jogadores extraordinários. O desafio é produzir referências extraordinárias. Porque gols vencem partidas. Exemplos moldam gerações.

Imagem: Nano Banana




























































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