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O que faz um profissional julgar-se maior do que a empresa em que trabalha?

  • há 7 horas
  • 2 min de leitura

No mundo do trabalho, há uma linha delicada entre confiança e descolamento da realidade. Quando um profissional começa a agir como se estivesse acima da instituição que o contratou, algo importante se perde no caminho. Perde-se o senso de pertencimento. Perde-se o compromisso com o resultado coletivo. 


A declaração recente de Dorival Júnior, técnico do Corinthians, nos faz refletir sobre algo além do futebol. Após empate em um clássico e uma sequência de resultados sem vitória, o treinador afirmou que dá “pouca importância” à pressão sobre o cargo e que prefere focar apenas no próprio trabalho. 


Talvez não tenha sido essa a intenção da fala. Talvez Dorival estivesse apenas tentando transmitir serenidade em um ambiente naturalmente inflamado como o futebol. Ainda assim, a percepção costuma seguir outra lógica. E, nesse caso, o sabor que ficou para muita gente foi amargo.


Quando uma organização atravessa um momento difícil, espera-se de seus líderes algo muito específico: envolvimento emocional com o resultado. A derrota precisa incomodar. O desempenho abaixo do esperado precisa gerar desconforto. Não se trata de histeria ou de decisões precipitadas. Trata-se de compromisso.


Porque quem ocupa uma posição de liderança não trabalha apenas para cumprir tarefas. Trabalha para representar algo maior do que si mesmo.


No futebol isso é ainda mais evidente. Um clube como o Corinthians não é apenas uma empresa ou uma marca esportiva. Ele é uma comunidade afetiva gigantesca. Milhões de torcedores depositam ali suas expectativas, sua identidade, seu tempo e, muitas vezes, seu dinheiro.


Por isso, quando os resultados não aparecem, a frustração não é apenas técnica. Ela é emocional.


Nesse contexto, qualquer sinal de distanciamento pode ser interpretado como indiferença. E a indiferença, para quem está do lado de fora, costuma soar como arrogância.


O fenômeno aparece também fora do futebol. Profissionais bem remunerados, com carreiras consolidadas, passam a agir como se sua trajetória fosse independente das instituições que os abrigam ou como se as glórias passadas bastassem.


Quando um profissional parece sugerir que pouco importa se ficará ou não, o subtexto que muitos captam é simples: se não der certo aqui, haverá outro lugar. Outro contrato. Outro salário. Outro projeto.


Mas é justamente aí que mora o problema. Resultados ruins precisam machucar. Se não machucarem no bolso, que machuquem na honra. Porque honra profissional ainda é um dos ativos mais importantes de qualquer carreira.


No final das contas, o verdadeiro líder não se mede pelo tamanho do salário ou pelo currículo acumulado. Mede-se pela forma como reage quando as coisas não vão bem.


E, nesses momentos, a pergunta que realmente importa não é se o profissional é maior do que a empresa. É se ele ainda se lembra de que nunca foi.



Foto: Bruno Escolástico/E.Fotografia/Gazeta Press

 
 
 

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