

A palavra
Há algo estrutural, e pouco tangível, naquilo que sustenta relações duradouras, sejam elas pessoais, institucionais ou comerciais: a palavra. Antes da assinatura, antes do contrato, antes do compliance, existe a afirmação feita, o compromisso assumido, o entendimento estabelecido. A palavra é o primeiro ato formal de qualquer acordo. E, quando respeitada, continua sendo o mais relevante, porque é dela que nasce a confiança que viabiliza qualquer relação de longo prazo. Vivemo


Feminicídio. Quando a proteção falha, a sociedade fracassa
O Brasil amanhece, mais uma vez, sob o peso de uma notícia que não deveria mais existir. Em São Paulo, mais um feminicídio. O nome do agressor, Cássio Zampieri, faz barulho nas manchetes, mas é o silêncio das vítimas que deveria nos ensurdecer. Mulheres com medidas protetivas seguem sendo assassinadas. O instrumento legal existe, a proteção real, não. Quando o Estado determina distância e a violência atravessa essa barreira como se fosse papel, precisamos admitir: há uma falh


A estupidez da guerra
A guerra entre Rússia e Ucrânia completa hoje quatro anos e já se tornou parte da paisagem geopolítica, como se a repetição do horror a tornasse aceitável. Tanques, drones, sanções, discursos inflamados, tudo embalado pela narrativa de soberania, segurança e identidade. A guerra sempre encontra palavras elevadas para justificar atos devastadores. É aí que começa sua estupidez, no abismo entre a retórica nobre e a realidade brutal. Não se trata de ingenuidade. Conflitos acompa


Entre jovens e maduros, a harmonia nota 10
O último Carnaval foi mais do que espetáculo. Foi uma demonstração clara de que maturidade não é sinônimo de passado. É ativo estratégico. A vitória da Unidos do Viradouro no Carnaval do Rio de Janeiro não pode ser lida apenas como resultado de alegorias grandiosas ou de uma bateria pulsante. Ela é, sobretudo, a consagração de uma liderança experiente. Ao colocar no centro do enredo a trajetória de Mestre Ciça, a escola reafirmou algo que o mundo corporativo ainda aprende com


Ressaca braba
A gente merece o Carnaval. Merece mesmo. Merece o bloco, o riso fácil, a fantasia improvisada, aquela sensação quase infantil de que, por alguns dias, o Brasil funciona na base da alegria compartilhada. Não há cinismo aqui. O descanso coletivo é legítimo. Como Sancho Panza refletiu em Dom Quixote: “O sonho é o alívio das misérias dos que estão despertos”. E nós sonhamos. O problema é que a quarta-feira chega. E este ano ela veio com uma ressaca braba. Enquanto pulávamos, o no


A felicidade que fica
Há uma armadilha silenciosa na forma como aprendemos a medir a própria vida. Fomos treinados para associar alegria a picos, aplausos, conquistas, convites. Quando nada disso acontece, muitos concluem que algo está errado. Talvez não esteja. Talvez estejamos apenas diante da parte mais madura da experiência humana. Do ponto de vista da neurociência, o organismo adora novidades. Descargas de dopamina e adrenalina funcionam como recompensas rápidas, atalhos de motivação. São úte


Eleições. A IA como vetor de mentiras
Vivemos uma inflexão democrática. A inteligência artificial, força que transforma mercados, serviços públicos e rotinas, também altera a natureza do debate eleitoral. Não se trata de negar benefícios. Trata-se de reconhecer que a mesma tecnologia que amplia eficiência pode ser usada para fabricar realidades alternativas e manipular percepções. A IA qualifica estratégias, facilita acesso à informação e pode aproximar representantes e representados. Porém, quando empregada para


Conteúdo em excesso. Para quem, afinal, estamos falando?
Nunca se produziu tanto conteúdo, nunca se publicou tanto, nunca se falou tanto e, paradoxalmente, nunca se ouviu tão pouco. Portais de notícia atualizam manchetes em ritmo industrial. Redes sociais operam em fluxo contínuo, quase automático. A pergunta que começa a incomodar profissionais conscientes não é mais como produzir, mas por que produzir e, principalmente, para quem. É legítimo, em algum momento, olhar para a própria trajetória e questionar: faço parte de uma engren


Quando o cuidado falha
Há uma tese antiga, simples e profundamente atual que ajuda a explicar muito do que estamos vivendo. Quando uma janela se quebra e ninguém a conserta, o recado que fica é que tudo pode ser quebrado. O psicólogo norte-americano Philip Zimbardo traduziu isso com precisão ao mostrar que o descaso não é neutro. Ele educa pela ausência. Ensina, sem palavras, que não há correção, que o erro permanece, que o ambiente tolera a quebra. Quando ninguém cuida, o sinal emitido não é lib


A difícil (e bela) arte de sobreviver
Quem disse que é fácil? Quem disse que era para ser fácil? Desde a concepção, a vida nos coloca em um fluxo contínuo de testes. Sobreviver é atravessar um percurso sem manual, com variáveis que mudam o tempo todo, exigindo leitura de contexto, capacidade de adaptação e decisões imperfeitas. É um projeto em permanente construção, onde o único KPI que nunca zera é seguir adiante. O ser humano nasce dependente, aprende a respirar, a cair, a levantar, a falar, a se frustrar. Apre

























































