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A voz da ordem

  • há 12 minutos
  • 2 min de leitura

Algumas falas, quando terminam, são rapidamente esquecidas. Outras permanecem porque recolocam ideias no lugar. O pronunciamento do Rei Charles III no Congresso dos Estados Unidos, nesta terça-feira, teve esse efeito raro. Em meio a uma era marcada por impulsos, hostilidade performática e debates convertidos em entretenimento, surgiu uma voz serena, ancorada na história e no senso institucional. 


Ao ouvi-la, muitos recordaram um tempo em que a palavra pública ainda buscava elevar o ambiente, e não incendiá-lo.


O monarca celebrou a relação entre Reino Unido e Estados Unidos como “insubstituível e inquebrável”. Não foi só retórica diplomática, mas uma escolha consciente de linguagem. Em vez de explorar divergências momentâneas, preferiu reforçar permanências. Em vez de transformar diferenças em trincheiras, buscou o terreno comum. Num cenário global em que tantos líderes prosperam pela divisão, a opção pelo vínculo já é uma mensagem poderosa.


Outro ponto digno de nota foi a lembrança de que a parceria entre as duas nações nasceu “da disputa”. A frase reconhece a história sem se aprisionar a ela. Houve ruptura, guerra e ressentimentos. E, ainda assim, o tempo permitiu cooperação, aliança e confiança. Eis uma lição esquecida nas sociedades polarizadas: adversários de hoje não precisam ser inimigos eternos.


Também houve referências às tradições democráticas, ao valor dos freios institucionais, à importância das alianças e ao dever de proteger a liberdade. São temas antigos, talvez clássicos demais para uma era viciada em frases de impacto e indignações instantâneas. Mas justamente por isso soaram modernos. O que envelheceu não foram esses valores. O que envelheceu mal foi a cultura da gritaria.


Muitos sentiram, ao ouvir o discurso, algo difícil de nomear, como a saudade de um futuro que parecia certo. Houve um tempo em que parte relevante do Ocidente acreditava seguir, com tropeços e correções, numa trajetória civilizatória ascendente. Mais diálogo, mais instituições, mais previsibilidade, mais capacidade de convergir após conflitos. 


Essa convicção foi abalada por diversos fatores, mas as redes sociais aceleraram o processo ao premiar o excesso, a simplificação e a performance permanente. Democratizar a voz é avanço. Confundir volume com razão, não. Dar acesso à palavra é conquista. Trocar argumentação por agressividade é regressão. O problema nunca foi ampliar o microfone, mas transformá-lo em critério de mérito.


Por isso, o discurso de Charles III tocou. Não apenas pelo conteúdo, mas pelo contraste entre compostura e ansiedade coletiva, entre memória histórica e presentismo nervoso, entre a política entendida como construção e a política reduzida a torcida.


Quando um discurso assim emociona, talvez não seja pelo orador. Talvez seja pela falta que sentimos de uma linguagem capaz de nos reunir sem nos infantilizar. E isso, convenhamos, anda raro demais.


Foto: Getty Images

 
 
 

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