Quando o cuidado falha
- Luis Alcubierre

- há 3 horas
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Há uma tese antiga, simples e profundamente atual que ajuda a explicar muito do que estamos vivendo. Quando uma janela se quebra e ninguém a conserta, o recado que fica é que tudo pode ser quebrado. O psicólogo norte-americano Philip Zimbardo traduziu isso com precisão ao mostrar que o descaso não é neutro. Ele educa pela ausência. Ensina, sem palavras, que não há correção, que o erro permanece, que o ambiente tolera a quebra.
Quando ninguém cuida, o sinal emitido não é liberdade, é abandono. E abandono, no comportamento humano, costuma virar autorização.
O comportamento humano responde a sinais. Sempre respondeu. Quando o ambiente físico, social ou simbólico demonstra abandono, o indivíduo tende a ajustar sua régua moral para baixo. Não porque seja essencialmente mau, mas porque percebe que o pacto foi rompido. A regra não escrita passa a ser: se ninguém cuida, por que eu cuidaria?
Esse mecanismo está hoje escancarado. Nas cidades, nas relações digitais, no debate público, nas empresas, nas famílias. Pequenas transgressões deixam de ser corrigidas, o improviso vira padrão, a grosseria é normalizada, a mentira passa a ser tolerada se for “útil”. O problema é que o ser humano aprende rápido. E aprende pelo exemplo, não pelo discurso.
Quando aceitamos o primeiro vidro estilhaçado, o comentário ofensivo ignorado, o lixo jogado no chão, a regra flexibilizada sem critério, a ética relativizada, abrimos espaço para algo maior. A deterioração raramente começa com grandes atos de destruição. Ela começa com pequenas concessões ao descaso.
Lembro de uma cena doméstica que, para mim, explica tudo isso melhor do que muitos tratados acadêmicos. Meu filho ainda pequeno brincava com um boneco. Um amiguinho havia arrancado um dos braços. Minutos depois, meu filho decidiu arrancar a perna. Ao perguntar o motivo, a lógica foi direta: “Já estava estragado”. Ali observava, em miniatura, a teoria das janelas quebradas em ação.
Naquele momento, fiz questão de intervir. Expliquei que o papel dele não era arrancar a perna, mas tentar arrumar o braço. Que o fato de algo estar danificado não nos autoriza a piorar a situação. Ao contrário, nos convoca à responsabilidade. Não sei se ele se lembra disso hoje, mas eu lembro. Porque aquela conversa não era sobre um boneco.
Era sobre caráter.
O mundo contemporâneo parece ter esquecido essa lição básica. Vivemos uma era em que consertar dá trabalho, exige tempo, diálogo, paciência e, sobretudo, compromisso. Destruir é mais rápido, dá menos esforço e ainda rende aplausos em certos círculos. O problema é que a conta chega. Sempre chega.
Ambientes, sejam eles cidades, organizações ou relações, não se degradam sozinhos. Eles refletem escolhas. Quando líderes toleram pequenas quebras, legitimam grandes colapsos. Quando a sociedade naturaliza o abandono, ela prepara o terreno para a violência simbólica, institucional ou real.
A boa notícia, se é que há uma, é que o caminho inverso também funciona. O cuidado é contagioso. O exemplo positivo cria padrão. Uma janela consertada comunica ordem, respeito e pertencimento. Um gesto de correção ensina mais do que mil discursos inflamados. Um limite bem colocado protege mais do que uma omissão travestida de tolerância.
Talvez o grande desafio do nosso tempo seja o de resistir ao impulso destrutivo quando tudo ao redor parece autorizar o descaso. Escolher arrumar o braço quando alguém já arrancou a perna. Cuidar quando o ambiente sugere abandono. Preservar quando o mundo parece ter desistido.
No fim, a pergunta que fica não é sobre quem quebrou a primeira janela. É sobre quem decidiu passar por ela todos os dias sem fazer nada. Ou, melhor ainda, sobre quem escolheu parar, arregaçar as mangas e consertar.

Foto: Theo Bickel





























































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