A estupidez da guerra
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A guerra entre Rússia e Ucrânia completa hoje quatro anos e já se tornou parte da paisagem geopolítica, como se a repetição do horror a tornasse aceitável. Tanques, drones, sanções, discursos inflamados, tudo embalado pela narrativa de soberania, segurança e identidade. A guerra sempre encontra palavras elevadas para justificar atos devastadores. É aí que começa sua estupidez, no abismo entre a retórica nobre e a realidade brutal.
Não se trata de ingenuidade. Conflitos acompanham a humanidade desde suas primeiras formas de organização. A psicologia social demonstra que, diante da percepção de ameaça, grupos reforçam o “nós” e constroem um “eles” perigoso. A antropologia lembra que disputas por território e recursos moldaram sociedades inteiras. O problema é que, no século XXI, dispomos de diplomacia estruturada, instituições multilaterais e cadeias de interdependência econômica capazes de substituir o confronto pela negociação. Ainda assim, optamos pelo atalho da força. A guerra é, no fundo, o colapso do diálogo.
O embate no Leste Europeu não é apenas territorial, é identitário. Guerras raramente são só sobre mapas. São sobre memória e histórias que se cristalizam como verdades absolutas. Quando identidades se sentem humilhadas ou ameaçadas, a racionalidade estratégica perde espaço para a emoção coletiva. E emoções inflamadas são combustível político.
Mas seria um erro imaginar que a guerra está restrita às fronteiras. Ela se reproduz no trânsito, quando o outro vira obstáculo. No escritório, quando divergências técnicas se transformam em disputas de ego. Dentro de casa, quando casais deixam de dialogar e passam a competir por razão e poder. Em escala reduzida, repetimos a mesma lógica que condenamos em escala global: a incapacidade de reconhecer o outro como interlocutor.
Tudo aquilo que defendemos no campo da comunicação, como escuta ativa, construção de consenso e reputação baseada em confiança, é negado pela guerra. Ela substitui argumento por imposição. Silencia, mas não convence. Interrompe, mas não resolve. A história mostra que conflitos armados raramente produzem estabilidade duradoura. Ao contrário, semeiam ressentimentos que atravessam gerações.
Ainda assim, há espaço para realismo esperançoso. A própria história europeia demonstra que rivalidades seculares podem dar lugar a projetos de cooperação quando lideranças compreendem o custo estrutural do confronto. Sociedades com instituições sólidas, educação de qualidade e cultura de diálogo tendem a gerir tensões sem recorrer à violência. A paz não é ausência de divergência, mas a maturidade para governá-la.
Se quisermos um mundo menos beligerante, precisamos começar no microcosmo. Educar nossos filhos para argumentar sem agredir, negociar sem manipular e perder sem humilhar é um investimento civilizatório. Ensinar empatia, responsabilidade pelas palavras e respeito às diferenças é formar cidadãos preparados para o diálogo, não para o embate permanente.
Quatro anos de guerra entre Rússia e Ucrânia nos lembram que tecnologia não equivale a evolução moral. A verdadeira força, de uma nação ou de um indivíduo, não está na capacidade de destruir, mas na competência do inverso. No fundo, por trás de bandeiras e fronteiras, o ser humano continua precisando do que sempre precisou: segurança, pertencimento e paz.

Foto: Evgeniy Maloletka/AP Photo




























































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