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Ressaca braba

  • 19 de fev.
  • 2 min de leitura

A gente merece o Carnaval. Merece mesmo. Merece o bloco, o riso fácil, a fantasia improvisada, aquela sensação quase infantil de que, por alguns dias, o Brasil funciona na base da alegria compartilhada. Não há cinismo aqui. O descanso coletivo é legítimo. Como Sancho Panza refletiu em Dom Quixote: “O sonho é o alívio das misérias dos que estão despertos”. E nós sonhamos.


O problema é que a quarta-feira chega. E este ano ela veio com uma ressaca braba. Enquanto pulávamos, o noticiário não tirou folga. O caso envolvendo o Banco Master avançou em capítulos que misturam suspeitas graves e questionamentos sobre a solidez de relações pouco transparentes entre o mercado e o poder. Sabemos que a confiança é um ativo intangível. E quando ela é arranhada, o valuation invisível despenca antes do balanço acusar. (Leia a edição de fevereiro da revista piauí. O artigo de Fernando de Barros e Silva é um primor).


No campo político, mal terminou a festa e já estamos oficialmente no modo “pré-campanha permanente”. A antecipação eleitoral virou prática recorrente, deslocando o foco de reformas estruturantes para estratégias de posicionamento. 


Exemplo disso foi a controvérsia em torno do desfile da Acadêmicos de Niterói, com homenagens ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que inflamaram opositores e alimentaram mais um ciclo de polarização. Carnaval virou palanque. E palanque, sabemos, raramente é espaço de escuta. Não assisti. Não poderia opinar sobre a qualidade do que apresentaram, mas os jurados parece que não gostaram e rebaixaram a escola para o grupo de acesso. Não acredito que tenha sido pelo tema, que fique claro.


Nada disso significa que não devêssemos ter ido às ruas. Fomos porque precisamos. O brasileiro trabalha duro, paga caro, enfrenta incertezas e ainda encontra energia para sorrir. Isso não é alienação, como muitos tentam nos fazer acreditar. É sobrevivência emocional. Mas também não podemos transformar o sonho em moradia permanente. O país exige vigília.


O ambiente que se desenha aponta para um 2026 que começa com tensão crescente, disputadas narrativas e instituições pressionadas. O risco? Que a pauta estratégica, de crescimento sustentável, segurança jurídica, educação de qualidade, redução da desigualdade, seja sequestrada por conflitos simbólicos.


No universo corporativo, aprendemos cedo, cultura não se sustenta com euforia temporal, mas com governança consistente. O mesmo vale para o país. Democracia não é evento, é processo. E processo exige método, responsabilidade e, principalmente, diálogo qualificado.


A partir da próxima semana a maquiagem vai escorrer. Ficaremos com o que realmente somos quando o som diminui: pais, mães, profissionais, cidadãos. E talvez a maior maturidade seja essa: celebrar quando é tempo de celebrar, mas ter coragem de acordar quando é hora de acordar. 


Porque o Brasil não precisa apenas de sonho. Precisa de direção.



 
 
 

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