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Master. Quando o fio desencapa

O caso Banco Master deixou de ser um episódio financeiro para se tornar um stress test institucional. A liquidação decretada pelo Banco Central abriu uma sequência de fatos objetivos: investigações da Polícia Federal, impacto potencial relevante no Fundo Garantidor de Créditos, contradições formais em depoimentos e disputas de competência entre reguladores e instâncias superiores. O que começou como um problema prudencial evoluiu para um teste de governança do Estado brasileiro. E seus efeitos já transbordam o sistema financeiro.


Daniel Vorcaro, controlador do banco, permanece no centro desse tabuleiro por atos documentados. Tentativa de venda a uma instituição estatal barrada pelo regulador, enfrentamento público ao Banco Central, versões conflitantes em depoimentos e uma estratégia de sobrevivência que extrapolou o campo técnico. O ponto crítico não é apenas o colapso de um banco médio, mas a engrenagem acionada quando a fragilidade estrutural ficou evidente.


O fio desencapa quando se observa a naturalidade com que o caso passa a circular por palácios, parlamento e cortes superiores. Não se trata de imputar culpa a agentes públicos, todos amparados por versões oficiais e negativas registradas. O dado relevante é outro: a contaminação institucional. Quando um problema privado ganha tração política, jurídica e narrativa antes de se encerrar no âmbito regulatório, algo no sistema deixa de funcionar como deveria.


Aqui cabe a explicitação necessária, sem ruído nem acusação leviana. Um banco médio, com fragilidades estruturais, acessando altas esferas políticas, jurídicas e regulatórias como estratégia de sobrevivência e pressão não é crime por si só. Relações institucionais existem e fazem parte do jogo democrático. Mas é sintoma grave de disfunção, sobretudo quando esse acesso se dá de forma opaca, recorrente e assimétrica.


O modelo do tráfego de informações agrava o quadro. Relatos de articulação de narrativas, pressão indireta sobre órgãos de controle e tentativas de deslocar o debate do campo técnico para o político expõem a ausência de uma comunicação de alto nível. Em crises sistêmicas, comunicar não é defender interesses privados, mas prestar contas, esclarecer riscos e preservar a confiança pública.


O caso Banco Master, portanto, vale menos pelo desfecho judicial que ainda virá e mais pelo alerta que já emite. Sem um choque de governança, transparência e segurança institucional, continuaremos assistindo à repetição do roteiro que mistura fragilidades privadas compensadas por capital político. O risco não é apenas financeiro. É permitir que o que o país tem de mais valioso, que são suas instituições, seja novamente usurpado, desta vez não por forças externas, mas pela complacência das próprias elites.



 
 
 

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