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A felicidade que fica

  • há 14 minutos
  • 2 min de leitura

Há uma armadilha silenciosa na forma como aprendemos a medir a própria vida. Fomos treinados para associar alegria a picos, aplausos, conquistas, convites. Quando nada disso acontece, muitos concluem que algo está errado. Talvez não esteja. Talvez estejamos apenas diante da parte mais madura da experiência humana.


Do ponto de vista da neurociência, o organismo adora novidades. Descargas de dopamina e adrenalina funcionam como recompensas rápidas, atalhos de motivação. São úteis, claro, mas não foram desenhadas para operar em regime permanente. O excesso cobra fatura. Ansiedade, frustração, dependência de estímulos. Em termos de gestão da própria energia, é um modelo insustentável.


O que raramente entra no planejamento estratégico da vida é a competência de permanecer bem quando o palco esvazia. A serenidade tem mais a ver com regulação do que com euforia. Envolve reconhecer que a bioquímica do contentamento também nasce de ritmos mais lentos, associados à segurança, ao vínculo, à percepção de sentido. Não são fogos de artifício, mas base estrutural.


Aprender a desfrutar da própria companhia, tolerar o tédio, aceitar dias comuns é desenvolver musculatura emocional. É trocar a tirania do evento pela inteligência do processo. Em vez de perguntar “por que nada está acontecendo?”, a virada é refletir “o que posso compreender enquanto aparentemente nada acontece?”. Há crescimento aí.


Recentemente, em uma conversa pública, Michelle Obama comentou algo nessa direção: a vida boa não é um estado contínuo de excitação, mas a capacidade de reconhecer valor inclusive nos intervalos. Há profundidade nessa visão. Ela nos desloca da busca permanente por validação externa para um diálogo mais honesto com quem somos.


A felicidade duradoura, portanto, não se comporta como meta de curto prazo. Ela se consolida como jornada, construída também nos dias silenciosos, nas horas sem agenda, na pausa que permite respirar. Quem entende isso deixa de perseguir apenas estímulos e passa a cultivar presença. E presença, no fim, é o ativo mais consistente que alguém pode ter.




Foto: Unsplash

 
 
 

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