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O desemprego caiu. Mas o Brasil está realmente empregado?

há 19 horas
3 min de leitura

Os números merecem ser comemorados, mas também compreendidos. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego no Brasil chegou a 5,2% no trimestre encerrado em setembro de 2026, o menor patamar para esse período desde o início da série histórica, em 2012. São 5,6 milhões de brasileiros desocupados, um contingente que vem diminuindo. 

É uma notícia positiva, independentemente de preferências políticas. Entretanto, há uma distância considerável entre a precisão de uma estatística e a complexidade da realidade que ela procura representar. E é justamente nessa distância que precisamos prestar atenção.

Para compreender o que está acontecendo, é importante conhecer a metodologia. Uma pessoa sem trabalho, que desistiu de procurar emprego por acreditar que não encontrará uma oportunidade, não integra a taxa oficial de desemprego. Da mesma maneira, quem realiza alguma atividade remunerada, ainda que insuficiente para garantir sua subsistência, pode ser considerado ocupado. Isso não representa manipulação dos números. 

São critérios estatísticos reconhecidos internacionalmente, necessários para produzir indicadores comparáveis. O problema começa quando transformamos um indicador específico em diagnóstico definitivo da situação econômica e social de um país.

O próprio IBGE oferece uma medida mais abrangente: a taxa de subutilização da força de trabalho, que considera os desempregados, aqueles que trabalham menos horas do que gostariam e pessoas que poderiam integrar o mercado de trabalho, mas não atendem integralmente aos critérios da desocupação. 

Em setembro, esse indicador chegou a 13%, representando 14,8 milhões de brasileiros. Entre eles, 2,5 milhões de desalentados e 4,3 milhões de pessoas subocupadas por insuficiência de horas. Há ainda 38,8 milhões de trabalhadores na informalidade, equivalentes a 37,5% da população ocupada. 

Evidentemente, não podemos somar esses contingentes indiscriminadamente, nem considerar todo trabalhador informal um desempregado. Mas seria igualmente equivocado ignorar o que revelam sobre as diferentes condições de inserção no mercado de trabalho.

Essa discussão não é nova. Na década de 1970, quando o Brasil experimentava grandes transformações industriais, urbanas e demográficas, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios já procurava compreender as condições de trabalho da população. A Pesquisa Mensal de Emprego surgiria apenas em 1980, e as metodologias foram sendo aperfeiçoadas para acompanhar uma realidade cada vez mais complexa. 

Na própria década de 1980, ganhou força o debate sobre a insuficiência das medidas tradicionais de desemprego para retratar países com elevada informalidade. Seria incorreto tentar recalcular os atuais 5,2% pelos critérios daquela época. O que a história nos ensina é que medir o desemprego sempre exigiu escolhas metodológicas e que nenhum indicador, isoladamente, consegue traduzir todas as dimensões do trabalho humano.

É justo reconhecer que o país avançou. A população ocupada alcançou 103,6 milhões de pessoas, e o rendimento médio real também apresentou crescimento na comparação anual. Desconsiderar esses resultados seria tão inadequado quanto celebrar os 5,2% sem olhar para o restante da pesquisa. O ponto que merece reflexão é outro: estar ocupado não significa necessariamente ter estabilidade, proteção social, renda suficiente ou perspectivas de desenvolvimento profissional. 

Há brasileiros que trabalham muito e continuam enfrentando enormes dificuldades para sustentar suas famílias. Há profissionais experientes que perderam espaço no mercado, jovens que não encontram oportunidades compatíveis com sua formação e pessoas que precisam combinar diferentes atividades para conseguir pagar suas contas. Essa realidade também precisa fazer parte da conversa.

Costumamos discutir os indicadores econômicos como se fossem argumentos capazes de encerrar debates. Na verdade, deveriam ser instrumentos para aprofundá-los. Governantes têm motivos legítimos para apresentar os avanços de suas gestões, assim como a sociedade tem o direito de conhecer as limitações desses resultados. A responsabilidade de quem comunica informações públicas está em oferecer contexto, não apenas números convenientes. 

Se queremos um debate nacional mais maduro, precisamos abandonar tanto o pessimismo que desconsidera conquistas quanto o entusiasmo que transforma estatísticas favoráveis em retratos de um país sem dificuldades.

O Brasil melhorou seus indicadores de emprego. É um fato. Mas ainda temos milhões de pessoas trabalhando em condições distantes daquelas que gostaríamos de oferecer a nossos filhos. O verdadeiro desenvolvimento não deveria ser medido apenas pela quantidade de pessoas que conseguem algum trabalho, mas também pela qualidade das oportunidades que uma sociedade é capaz de proporcionar. 

Os números são fundamentais para compreender a economia. As pessoas, entretanto, continuam sendo a razão pela qual ela deve funcionar.

Imagem: GPT

 
 
 

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