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Quando o passado fica cor-de-rosa

há 20 horas
3 min de leitura

Nossa memória costuma pregar algumas peças. Uma delas tem a ver com a sensação de que o ontem foi melhor do que o hoje. Quanto mais distante fica um determinado período, maior passa a ser a nossa tendência de enxergá-lo com mais carinho do que ele merecia.

A psicologia tem um nome para isso: rosy retrospection. O conceito foi formulado pelos psicólogos Terence Mitchell e Leigh Thompson, em 1994, para descrever nossa tendência de lembrar experiências passadas de maneira mais positiva do que as avaliávamos enquanto elas aconteciam. Anos mais tarde, estudos confirmaram o fenômeno. Aquilo que, no momento, teve incômodos, frustrações e problemas, com o passar do tempo pode se transformar em uma experiência muito melhor do que realmente foi.

É como se a memória editasse a nossa própria história. E isso ajuda a compreender uma notícia que me parece um novo marco dos nossos tempos: a vitória da extrema direita na Alemanha.

Neste domingo, a AfD conquistou 43,8% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt. Foi a primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial que um partido de extrema direita venceu uma eleição estadual na Alemanha. A AfD não alcançou maioria absoluta, mas o resultado rompe uma barreira política e simbólica que parecia impensável no país que carrega, talvez mais do que qualquer outro, as cicatrizes do nazismo.

E há ainda algo interessante nessa história. O candidato da AfD, Ulrich Siegmund, apresentou aos eleitores a promessa de recuperar “a nossa boa, velha e segura Alemanha”. A frase não é só uma mensagem política. Ela resgata uma expressão que já fazia parte da retórica nacionalista alemã no início dos anos 30 do século passado: das gute alte Deutschland, ou “a boa e velha Alemanha”.

Não por acaso, a expressão aparece em um discurso de Adolf Hitler de 1º de maio de 1934, na forma “jenes gute alte Deutschland”, “aquela boa e velha Alemanha”. Naquele contexto, Hitler evocava a Alemanha de gerações anteriores e os sacrifícios feitos pelo Reich. A ideia de um passado idealizado, que deveria ser recuperado, já estava presente na narrativa nacionalista alemã.

É que o passado, quando contado pela memória, costuma ficar mais bonito.

Não significa que as pessoas estejam mentindo. É mais sofisticado do que isso. Nossa memória não funciona como uma câmera de segurança. Ela reconstrói experiências. Os aspectos negativos tendem a perder intensidade emocional com o tempo, enquanto determinadas lembranças positivas permanecem mais acessíveis. Assim, uma experiência que foi ambígua, difícil ou simplesmente comum pode adquirir, anos depois, uma tonalidade muito mais agradável.

Isso acontece com nossas férias, nossos empregos, nossos relacionamentos e até com a infância.

“Naquele tempo era tudo melhor.” Será?

Quando transportamos esse mecanismo psicológico do indivíduo para a sociedade, o risco fica muito maior. Uma pessoa pode romantizar a adolescência. Uma sociedade pode romantizar uma época.

E é aí que a nostalgia deixa de ser apenas uma lembrança e pode se transformar em instrumento político.

A promessa de “voltar” a um passado idealizado é poderosa porque oferece uma resposta simples para uma realidade complexa. Se hoje há insegurança, desemprego, imigração, inflação, perda de identidade ou descontentamento com os políticos tradicionais, alguém aparece dizendo: “antes não era assim. Vamos recuperar aquilo que perdemos!”.

O problema é que esse “antes” quase nunca existiu exatamente daquela maneira.

A Alemanha conhece isso melhor do que ninguém. Ainda assim, a AfD encontrou terreno fértil em uma região marcada por desigualdades persistentes entre o antigo leste e o oeste alemão, por insegurança econômica e por desilusão com a política tradicional. O próprio Siegmund explorou em sua campanha elementos de nostalgia da antiga Alemanha Oriental, o que mostra como diferentes passados podem ser mobilizados politicamente.

É possível que aí esteja a grande lição.

Não basta combater a extrema direita dizendo às pessoas que elas estão erradas. É preciso compreender o sentimento que torna aquela narrativa atraente. Ninguém vota apenas com planilhas. Vota também com lembranças, medos, frustrações, identidades e expectativas.

O rosy retrospection nos lembra que, assim que o presente parece ruim, nosso cérebro pode melhorar artificialmente o passado. E a política sabe muito bem como explorar isso. Por isso, quando alguém promete devolver “os bons velhos tempos”, certamente devemos fazer algumas perguntas muito simples:

Bons para quem? E velhos tempos exatamente quais?

Às vezes, o passado que queremos recuperar nunca existiu. Existiu apenas na nossa cabeça.

E talvez seja justamente por isso que aquilo que parece estar florescendo novamente na Europa e nos Estados Unidos também esteja encontrando espaço por aqui.

A nostalgia é humana. A idealização do passado também.

E quando a política aprende a transformar essa nostalgia em projeto de poder, vale a pena prestar um pouco mais de atenção ao que está acontecendo.


Imagem: Old Photos in Real Life

 
 
 

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