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Entre o cargo e a pessoa

  • há 15 horas
  • 2 min de leitura

Há organizações em que basta alguém dizer o próprio cargo para que a conversa mude de tom. Não porque essa pessoa tenha demonstrado conhecimento, experiência ou competência, mas porque o cargo, sozinho, já produz autoridade, endireita posturas, reduz objeções e, não raro, transforma opinião em verdade.


O problema começa quando passamos a respeitar mais o cargo do que a pessoa que o ocupa. Aí confundimos autoridade com competência. Uma ideia pode ser ignorada quando vem do analista e imediatamente aceita quando é repetida pelo diretor. Não porque tenha ficado melhor, mas porque agora veio acompanhada de um cargo.


É assim que a cultura da carteirada se instala. Nem sempre de forma explícita. Às vezes, ela está no silêncio de uma sala, na pergunta que ninguém ousa fazer, no “vamos fazer assim” que substitui qualquer argumento. Todos sabem quem pode falar, quem pode discordar e, principalmente, quem precisa ser ouvido.


E isso cria atalhos ao poder. A proximidade com quem decide, passa a valer mais do que a qualidade do argumento. O organograma começa a definir não apenas quem decide, mas quem merece ser escutado. E, quando isso acontece, a política interna ocupa o espaço que deveria pertencer à competência. Já pensou quanta gente competente e experiente, mas com um cargo inferior, deveria ter sido escutada e não foi?


O efeito mais perverso recai exatamente sobre os competentes que não ocupam posições de poder. Eles precisam provar que merecem ser ouvidos, enquanto alguns cargos parecem oferecer um crédito pré-aprovado de competência. E uma organização que não escuta quem sabe, simplesmente porque essa pessoa não ocupa a mesa certa, está desperdiçando inteligência.


Cargos existem para organizar responsabilidades, estabelecer alçadas e permitir decisões. Não deveriam determinar quem merece respeito. Autoridade deve acompanhar a função. Respeito deve acompanhar a pessoa.


No fim, há uma diferença enorme entre respeitar alguém porque ocupa um cargo e respeitar alguém que ocupa um cargo. No primeiro caso, respeitamos a cadeira. No segundo, respeitamos a pessoa que foi escolhida para sentar nela.



 
 
 

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