top of page

A verdade está ficando de fora da campanha

há 5 horas
3 min de leitura

O que se esperava, aconteceu. Aquilo que antecipamos no início do ano era, afinal, favas contadas. O segundo turno das eleições presidenciais fala mais de agredir e administrar mentiras do que de propor soluções para a verdade que o cidadão precisa ouvir.

A campanha presidencial brasileira tornou-se uma sucessão de acusações, desmentidos, decisões judiciais e novas acusações. De um lado, a tentativa de convencer o eleitor de que a vitória do adversário representará uma tragédia nacional. Do outro, estratégia semelhante, com personagens e argumentos invertidos. Entre os dois, milhões de brasileiros tentando compreender o que efetivamente acontecerá com suas vidas a partir de janeiro de 2027.

Somente no primeiro turno, as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro protagonizaram pelo menos 470 ações judiciais relacionadas à disputa eleitoral, segundo levantamento da Folha de S.Paulo. O Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de publicações de ambos os campos, envolvendo desde conteúdos produzidos com inteligência artificial até acusações sem comprovação suficiente. A Justiça Eleitoral passou a ocupar uma posição quase permanente na administração do discurso dos candidatos.

Evidentemente, reconhecer excessos dos dois lados não significa estabelecer equivalência entre condutas, circunstâncias ou gravidades. Uma acusação comprovada não se transforma em desinformação porque incomoda o acusado. A democracia precisa proteger o direito de denunciar, investigar e questionar. O que não pode admitir é que a fabricação deliberada de fatos seja tratada como exercício legítimo da liberdade de expressão.

A mentira deixou de ser apenas um desvio da comunicação política para se transformar em instrumento de campanha. Uma acusação é lançada, ganha repercussão e provoca indignação. Quando chega a contestação, o conteúdo já cumpriu parte de sua finalidade. Com a inteligência artificial, essa dinâmica tornou-se ainda mais preocupante. Agora, precisamos verificar até se aquilo que vemos e ouvimos aconteceu de fato.

Combater a desinformação exige vigilância, mas também equilíbrio. Não podemos entregar ao Estado ou às plataformas digitais o poder irrestrito de determinar quais opiniões merecem circular. A distinção entre crítica legítima e falsificação, entre fiscalização e censura, precisa ser preservada. A integridade das eleições depende tanto da proteção contra a mentira quanto da garantia do debate público.

Mas toda essa discussão nos conduz à pergunta que considero mais importante: e o cidadão?

Enquanto as campanhas disputam versões da realidade, as preocupações concretas da população permanecem praticamente as mesmas. Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira aponta a violência como principal problema do país para 20% dos entrevistados. A saúde aparece com 18%, seguida da economia, com 15%. Questões que atravessam preferências partidárias e diferenças ideológicas.

O trabalhador quer mobilidade. A família que aguarda atendimento pelo SUS precisa de soluções. O empreendedor espera previsibilidade. O jovem procura oportunidades. O aposentado deseja segurança. E quem enfrenta a violência cotidiana tem o direito de exigir políticas públicas que ultrapassem frases de efeito.

Os candidatos representam visões distintas sobre o papel do Estado, a economia e as políticas sociais. São diferenças legítimas, que deveriam ser examinadas com profundidade. Mas governar exige explicar não apenas o que se pretende fazer, como também quanto custará, quem será beneficiado e quais serão as consequências. Prometer benefícios sem discutir seus custos é tão insuficiente quanto anunciar cortes sem esclarecer quem será afetado.

Há ainda uma consequência preocupante dessa disputa pela desqualificação. Ao insistirem que o outro representa o mal absoluto, os candidatos estimulam uma sociedade na qual discordar deixa de ser legítimo. O adversário político passa a ser tratado como inimigo moral, e seus eleitores, como pessoas incapazes de pensar por conta própria. Nenhuma eleição deveria exigir que metade do país se sentisse derrotada em sua dignidade para que a outra metade pudesse comemorar uma vitória.

O candidato que precisa mentir sobre o adversário para conquistar apoio deveria explicar por que suas próprias ideias não são suficientes para convencer o eleitor. E aquele que promete resolver tudo deveria ter a coragem de explicar o que não conseguirá fazer.

A comunicação política tem uma responsabilidade que ultrapassa a conquista do voto. Ela também educa, estabelece referências de comportamento e influencia a maneira como a sociedade compreende suas instituições. Se a mentira passa a ser aceita como recurso eleitoral, cria-se um precedente perigoso: o de que a honestidade é uma virtude desejável nas relações pessoais, mas dispensável na disputa pelo poder.

Faltam poucos dias para o segundo turno. Ainda há tempo para debates que tratem dos problemas reais do país. Afinal, o cidadão não vota apenas para escolher quem ocupará a Presidência da República. Vota porque espera que sua vida, de alguma maneira, possa melhorar.

A democracia brasileira já demonstrou sua capacidade de organizar eleições complexas e produzir resultados legítimos. O desafio que permanece é elevar a qualidade daquilo que acontece antes do voto.

Não basta garantir que o eleitor possa escolher livremente. É preciso respeitar seu direito de escolher com base na verdade.

E essa responsabilidade não deveria depender de uma decisão judicial.

Imagem: GPT

 
 
 

Comentários


+ Recentes
Arquivo
Busca por Tags
Siga-me
  • LinkedIn Social Icon

© 2015 - 2026 | Luis Alcubierre

  • LinkedIn
bottom of page