Quando o sindicalismo perde relevância
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Durante muito tempo, a agência bancária foi um ponto de encontro. Ali se pagavam contas, resolviam-se problemas, conversava-se com o gerente, encontravam-se conhecidos. Era um lugar onde as pessoas confiavam seu dinheiro e, de certa forma, um pedaço de suas vidas.
Hoje, basta olhar em volta. Muitas desapareceram. Outras sobrevivem quase que às moscas, com poucos funcionários e um movimento que já não lembra os dias em que retirar uma senha era sinônimo de paciência.
Não foi uma decisão isolada. Foi uma mudança de época.
A tecnologia fez o que costuma fazer quando encontra espaço para evoluir: levou o banco para dentro do celular, eliminou etapas, reduziu custos e aproximou serviços que antes dependiam de um endereço físico. Vieram as fintechs, os cartões pré-pagos, o Pix, o open finance, a inteligência artificial. Em poucos anos, a experiência bancária deixou de acontecer diante de um balcão para acontecer diante de uma tela.
Era um movimento difícil de deter.
Mas existe uma pergunta que continua me acompanhando: enquanto tudo isso acontecia, onde estava o sindicalismo?
Faço essa pergunta com respeito à sua história. Seria injusto ignorar a contribuição que os sindicatos deram ao longo do século passado. Eles foram fundamentais para reduzir jornadas abusivas, melhorar condições de trabalho e equilibrar relações que, durante décadas, favoreciam apenas um dos lados. Muito do que hoje parece natural nasceu da coragem de trabalhadores que decidiram se organizar.
Mas a história não concede salvo-condutos. Ela cobra capacidade de adaptação.
Nos anos 1980, cerca de um terço dos trabalhadores formais brasileiros era sindicalizado. As assembleias reuniam multidões, as campanhas mobilizavam categorias inteiras e as lideranças tinham enorme influência sobre os rumos do país. A ponto de que uma delas disputa, 46 anos depois, mais uma eleição para presidente, com chances reais de assumir a sua quarta administração. Hoje, segundo o IBGE, menos de 9% dos trabalhadores ocupados são sindicalizados.
Não é apenas uma queda estatística. É um sinal de perda de relevância.
E relevância raramente desaparece de uma vez. Ela vai escapando aos poucos, quando as perguntas da sociedade mudam e as respostas permanecem as mesmas.
Enquanto os bancos percebiam que seu maior concorrente deixaria de ser o banco da esquina para se tornar uma empresa de tecnologia, o mundo do trabalho também começava a mudar. Novas profissões surgiam, outras desapareciam, competências eram substituídas e novas formas de contratação ganhavam espaço.
Salários, benefícios e estabilidade continuavam, e continuam, sendo importantes. Mas já não eram suficientes para responder ao que estava por vir. Possivelmente aí esteja uma das grandes oportunidades perdidas. Não a de impedir o fechamento das agências. Isso provavelmente ninguém conseguiria. Mas a de preparar os trabalhadores para um mercado completamente diferente daquele que existia.
Imagine se, há vinte anos, os sindicatos tivessem liderado grandes programas de requalificação profissional. Se tivessem se aproximado das universidades, pressionado por políticas públicas de formação tecnológica, criado estruturas para representar quem começava a trabalhar nas fintechs e nas empresas digitais que ainda engatinhavam.
O resultado provavelmente seria diferente. Ou, pelo menos, a conversa seria outra. Porque defender empregos continuará sendo uma missão importante. Mas ajudar a construir os empregos que ainda nem existem talvez seja uma missão ainda maior.
A redução das agências bancárias não está relacionada apenas ao setor bancário. Ela conta a história de um mundo que mudou mais depressa do que muitas de suas instituições conseguiram acompanhar. E isso não vale apenas para os sindicatos. Vale para empresas. Vale para governos. Vale para universidades. Vale para organizações de todos os tipos. Vale, inclusive, para cada um de nós.
Existe uma diferença enorme entre proteger conquistas e se apegar ao passado. A primeira atitude preserva aquilo que tem valor. A segunda pode nos impedir de enxergar aquilo que está nascendo.
Esse seguramente é um dos grandes desafios do nosso tempo: compreender que relevância não é um patrimônio permanente. Ela precisa ser construída, atualizada e, principalmente, merecida todos os dias.
Não se trata de vencer a tecnologia. Nunca foi. Trata-se de aprender a caminhar ao lado dela sem perder aquilo que nos torna humanos. As instituições não desaparecem apenas quando deixam de existir. Elas começam a desaparecer quando deixam de fazer sentido.
E poucas coisas são mais difíceis de recuperar do que a relevância perdida.

Imagem: Macondoso | Envato




























































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