O Estado não precisa ser dono de tudo
- há 17 horas
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A falência da Oi, decretada novamente pela Justiça do Rio de Janeiro, nesta semana, é uma boa oportunidade para discutirmos algo maior do que a própria empresa. Afinal, a Oi não é apenas a história de uma companhia que acumulou dívidas, vendeu seus principais ativos, passou por duas recuperações judiciais e terminou com uma dívida da ordem de R$ 44 bilhões. É também a história de um projeto de país que acreditou que era possível construir uma grande empresa nacional por meio de decisões políticas, alterações regulatórias e estímulos do Estado.
É importante fazer uma distinção: a Oi era uma empresa privada. Não foi uma estatal que quebrou. Mas sua trajetória foi profundamente influenciada por decisões do Estado. Em 2008, o governo alterou as regras para permitir que a empresa comprasse a Brasil Telecom, numa operação que fazia parte do projeto de criar uma grande companhia brasileira de telecomunicações. Dois anos depois, a Portugal Telecom entrou em seu capital. O que se pretendia como uma “supertele” nacional terminou em endividamento, venda de ativos, duas recuperações judiciais e, agora, falência.
É aqui que começo a me perguntar se o Estado brasileiro não deveria aprender, de uma vez por todas, a diferença entre regular o mercado e querer ser o mercado.
Não se trata de dizer que toda empresa estatal é ineficiente. Seria uma simplificação tão ruim quanto afirmar que toda empresa privada é eficiente. A Petrobras, por exemplo, apresentou lucro de R$ 110,1 bilhões em 2025. Banco do Brasil, Caixa e BNDES também são instituições públicas que movimentam volumes gigantescos de recursos e podem cumprir funções que extrapolam a lógica de uma empresa privada.
Mas talvez justamente esses casos ajudem a compreender a exceção. Petróleo é uma indústria de escala monumental e de enorme relevância estratégica. Bancos públicos atuam em um setor no qual capital, escala, funding e capacidade de crédito fazem parte da própria natureza do negócio. Não é porque uma estatal pode ser lucrativa nesses ambientes que o Estado tenha vocação para administrar qualquer atividade econômica.
Enquanto isso, olhamos para os Correios. A empresa fechou 2025 com um prejuízo de R$ 8,5 bilhões, mais de três vezes o resultado negativo do ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, perdeu mais R$ 3,16 bilhões. Agora, precisa de reestruturação, PDV, venda de imóveis, fechamento de unidades e bilhões em crédito com garantia da União.
E o problema não é apenas financeiro. Empresas submetidas à lógica política carregam um risco que uma companhia privada, em tese, não deveria carregar: a possibilidade de decisões empresariais serem contaminadas por interesses que nada têm a ver com eficiência, produtividade, inovação ou retorno sobre o capital. A cada troca de governo, muda a direção. A cada mudança de direção, podem mudar as prioridades. E, quando a conta chega, quase sempre existe alguém para pagar: o contribuinte.
Meu sonho, confesso, é muito menos ambicioso do que criar campeões nacionais.
Gostaria de viver em um país em que o Estado fosse extraordinariamente competente naquilo que só ele pode fazer bem: saúde, educação, segurança pública, saneamento, mobilidade, habitação e infraestrutura básica. Um Estado capaz de planejar o longo prazo, reduzir desigualdades, garantir direitos e fazer com que serviços essenciais funcionem. E, principalmente, um Estado que tenha excelentes agências reguladoras, independentes e tecnicamente qualificadas, capazes de estabelecer limites, fiscalizar empresas, proteger consumidores e impedir abusos de poder econômico.
E que deixasse produzir para quem sabe produzir. Que deixasse investir para quem sabe investir. Que deixasse empreender para quem sabe empreender.
O Estado não precisa ser pequeno. Precisa ser bom naquilo que lhe cabe fazer.
Essa distinção é mais importante do que a velha briga entre direita e esquerda. Não precisamos escolher entre um Estado forte e um mercado forte. Precisamos de um Estado forte onde ele é indispensável e de um mercado livre onde ele é mais competente.
Porque, quando o Estado tenta administrar aquilo que não entende, o mercado não necessariamente desaparece.
Às vezes, quem desaparece é a empresa.

Imagem: Divulgação




























































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