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A verdade não escolhe lado

há 5 horas
4 min de leitura

A política brasileira conseguiu colocar Nossa Senhora Aparecida no centro da disputa presidencial antes mesmo de outubro chegar. Não por uma manifestação da Igreja, uma decisão do Congresso ou uma proposta de governo. A santa entrou na eleição pelas redes sociais, carregada por uma informação falsa, e acabou produzindo um episódio que diz muito mais sobre o nosso ambiente político do que sobre o assunto que lhe deu origem.

A informação que viralizou dizia que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Não havia projeto nesse sentido. A proposta usada como origem da história era de 2007, apresentada pelo então deputado Victório Galli. O projeto foi arquivado em 2022. Não há registro de declaração de Flávio Bolsonaro ou de sua campanha defendendo a retirada do título.

O problema foi o que veio depois.

A mentira ganhou velocidade, foi compartilhada, comentada e transformada em instrumento de campanha. Segundo levantamento divulgado pela AP Exata, as críticas à disseminação da fake news chegaram a superar as manifestações de indignação provocadas pela suposta ameaça à santa. Em poucas horas, a discussão já não era apenas sobre o que era verdadeiro ou falso, mas sobre quem conseguiria controlar a narrativa.

Lula comentou o episódio e disse que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. Quando questionado pela jornalista se aquilo não era uma fake news, respondeu que não sabia. É uma passagem pequena, mas reveladora: mesmo diante de uma informação ainda não confirmada, a indignação pode chegar antes da apuração.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, depois de corretamente denunciar como falsa a associação de seu nome à retirada do título da santa, acusou o PT e pessoas ligadas à CNBB de participar da disseminação do boato, sem apresentar provas para sustentar essas acusações. A CNBB negou qualquer envolvimento e afirmou que acusações sem fatos ou provas atingem injustamente a instituição.

Há uma distinção que não pode ser perdida no calor da disputa: demonstrar que uma informação é falsa não significa provar quem a criou ou disseminou. Uma acusação continua precisando de evidências, inclusive quando parece plausível e favorece a nossa própria narrativa.

E a política seguiu fazendo aquilo que sabe fazer tão bem: transformar um episódio em símbolo.

Na segunda-feira, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas ergueram juntos uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um ato de campanha em São Paulo. Flávio agradeceu à CNBB pela nota, embora a entidade tivesse negado justamente a acusação que ele havia feito contra ela. A imagem da santa, portanto, já havia deixado de ser apenas parte de uma controvérsia sobre desinformação. Tornara-se também um elemento visível da comunicação eleitoral.

É difícil imaginar uma demonstração mais clara de como a política transforma acontecimentos em símbolos e símbolos em disputa.

Mas foi no Judiciário que a história ganhou uma dimensão ainda mais delicada.

O ministro André Mendonça, no TSE, determinou a remoção de publicações que associavam Flávio Bolsonaro à suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O ministro Flávio Dino, no STF, posteriormente suspendeu essa determinação em relação a uma publicação e determinou o restabelecimento de conteúdos, entendendo que não havia grau suficiente de certeza sobre a ilicitude para justificar uma intervenção tão severa na liberdade de expressão.

Na segunda-feira à noite, Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu, provisoriamente, a ordem anterior do TSE. O ministro determinou que o caso seja levado ao plenário do STF e apontou, entre outras questões, a necessidade de preservar as regras próprias da Justiça Eleitoral e evitar que decisões eleitorais sejam revistas por meio de mecanismos processuais inadequados. Também considerou relevante a proximidade do primeiro turno.

Não é preciso escolher entre os ministros para perceber a questão institucional. Para o cidadão comum, permanece uma pergunta incômoda: qual é a régua?

Se a liberdade de expressão é um valor fundamental, seus limites precisam ser claros. Se a desinformação pode interferir na formação da vontade do eleitor, seu combate também precisa obedecer a critérios objetivos. E se diferentes decisões judiciais podem suspender, restaurar e novamente suspender a circulação de um mesmo conteúdo em poucos dias, a sociedade tem o direito de compreender quais princípios estão orientando cada decisão.

O próprio ministro Fux pediu que o caso seja apreciado pelo plenário. Isso é importante. Uma questão com tamanho impacto sobre liberdade de expressão, Justiça Eleitoral e formação da vontade do eleitor merece uma resposta institucional que ultrapasse a disputa individual entre decisões monocráticas.

Mas há uma incoerência ainda maior, e ela não está apenas nos tribunais.

Cada campo político enxerga com enorme clareza a mentira produzida pelo adversário e desenvolve uma impressionante capacidade de relativizar aquilo que lhe convém. A mentira do outro ameaça a democracia. A nossa vira contexto, reação, exagero ou resposta.

Isso não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda. É uma degradação do debate público que atravessa os dois polos.

O episódio de Nossa Senhora Aparecida deveria nos ensinar justamente o contrário. Não devemos acreditar em uma informação porque ela confirma aquilo que pensamos. Tampouco rejeitá-la porque veio de alguém de quem não gostamos. Uma mentira continua sendo mentira mesmo quando nos ajuda.

A democracia não precisa de cidadãos que escolham a versão mais conveniente dos fatos. Precisa de pessoas capazes de reconhecer a falsidade mesmo quando ela chega vestida com as cores de suas próprias convicções.

Nossa Senhora Aparecida não deveria ser instrumento eleitoral. A fé de milhões de brasileiros não deveria ser convertida em munição de campanha. E a verdade não pode depender de quem se beneficia dela.

Ela não pertence a partido, candidato, religião, tribunal ou grupo político, Ela exige a mesma coisa de todos. Prova.

E, diante de tanta disputa, tanta indignação, tanta acusação e tanta vontade de vencer a qualquer custo, confesso que meu desejo é bastante simples.

Que um dia alguém me pergunte como estou e eu possa responder, sem ironia, sem provocação e sem precisar escolher um lado: "Na Santa paz".


Imagem: Chat GPT

 
 
 

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